Opinião: João de Jesus Nunes | O pão que o diabo amassou
Por Jornal Fórum
Publicado em 11/06/2026 14:16
Opinião

Com repercussão em algumas crónicas inseridas neste semanário Jornal Fórum Covilhã, por conceituados cronistas que sabem o que dizem no que concerne à sua vivência enquanto meninos e moços, inspirou-me a memória de algumas narrativas que já trouxe para a ribalta deste espaço jornalístico e que se encontravam numa certa hibernação.

O talvez tenha sido o meu saudável vício de não conseguir parar de escrever. São mais de seis décadas, desde a escrita manuscrita, datilografada ou computadorizada.

Teresa Inácio Neves, no número de 28 de maio, com a sua lucidez de escrita de fino traço, fala-nos de um eventual tio que garantia, no seu tempo (dele), que a vida era uma epopeia nas dificuldades que atravessavam, caminhando vários quilómetros a pé para a escola e para o trabalho.

Considerados uma geração mimada e privilegiada, somos, dizem eles, mais complexos, mas a verdade é que agora carregamos outros fardos que, na altura, nem sequer tinham nome.

Ser adulto no século XXI é, como refere Teresa Neves, se bem entendi, pertencer a uma daquelas gerações híbridas – a geração “ponte”. Se é um facto que crescemos sem telemóveis e com a tecnologia a entrar nas nossas vidas a conta-gotas, leva-me aos tempos nostálgicos em que cada inovação era algo quase sobrenatural e ainda não tínhamos chegado à inteligência artificial.

Toda a narrativa de Teresa Inácio Neves é uma lição de memórias para os dias de hoje.

Já os “Meninos de Ontem”, de António Rebordão, habituou-nos a uma realidade que vai acontecendo por este mundo de ingratos, no mesmo número, a que já aludi deste semanário, e onde refere “O que era a vida há 75 anos – Relatos Verídicos”.

Também eu nasci numa situação de fortes dificuldades económicas, no ano de 1946, quando não havia água corrente, eletricidade nem gás. O saneamento era também inexistente. Faziam-se os despejos para uma estrumeira que depois servia para fertilizar as pequenas hortas e quintas existentes. Éramos seis irmãos.

À água iam as mulheres à mina, de cântaro à cabeça. No regresso, ficava junto a uma cantareira, de onde se tirava a água para beber e para a cozinha, com um copo de alumínio.

As louças eram esfregadas com sabão macaco ou rosa, sendo que o chão, em madeira de pinho, quando necessário, era esfregado com sabão amarelo.

Os cães, gatos e aves de capoeira andavam livremente na rua, enquanto os coelhos se recolhiam nas coelheiras e os suínos nos currais, alimentados com viandas adicionadas de farelos. No ar, sobrevoavam-nos os pombos e pombas que, mal viam deitar-lhes o milho, não receavam vir até junto de nós.

Matar uma galinha ou um coelho só acontecia em dias de festa ou quando alguma visita, geralmente familiares, nos fazia uma surpresa.

Nós comíamos pão de segunda, por sermos muitos. Quando a avó saía da fábrica, juntava as filhas e os netos para tomar o chá, com aquele pão de quartos ou regueifa da D. Celeste, juntamente com queijo queimoso.

Meu pai, para além de trabalhar na antiga Biblioteca Municipal, ao jardim, entrando às 16 horas e saindo às 23, jantava o farnel que trazia de casa. À noite, fosse verão ou inverno, com vento ou chuva, lá ia carregado, a pé, até à Pousadinha, sem luz, pelos caminhos de terra batida, a partir do Lameirão. Só quando algum carro passava por nós, vindo da Aldeia do Carvalho, nos encandeava com as luzes no máximo, tínhamos alguns momentos sem escuridão.

Nasci na Pousadinha, em casa, com a ajuda da “parteira caseira”, D. Lucinda. Minha avó e a Senhora Maria, mãe de uma das minhas tias, aquando da parição, vinham para ajudar a tratar da pequenada.

A minha irmã Rita Fátima e eu éramos os mais velhos. Começaram a surgir os primos. O João Manuel, filho do tio Manuel e da tia Albertina, faleceu ainda bebé. O mesmo destino levou a Carolina Fátima, filha dos meus tios António e Irene.

Era hábito, no dia do funeral, os familiares do falecido, fazerem uma fila na rua, a partir da porta onde se encontrava o féretro, porque não cabiam em casa, recebendo os sentidos pêsames. Assim aconteceu com o meu avô João de Brito e também com aqueles pequenos primos.

O meu irmão António, ainda adolescente, criava-me problemas ao ficar junto de mim porquanto levava o assunto para a risada, em pleno momento de luto:

– Olha o nariz daquele!

– Olha aquele manco!

Mas a fisionomia daquele que surgia a estender a mão sem a ponta dos dedos não permitiu que a risada fosse contida. O António, meu irmão, mais não fez do que se agachar, simulando que estava a atar os atacadores dos sapatos. Mesmo assim, faziam-lhe sinal para se levantar.

Fiz com o meu pai a primeira classe. Assim como me preparou para a Primeira Comunhão, na Aldeia do Carvalho, com o Padre Pita, que tinha uma mota.

Também alguns adultos que pretendiam aproveitar o programa da Campanha Nacional de Educação de Adultos, para completarem a 4ª. classe, combinavam com o meu pai, conhecido professor Martins, na Pousadinha, um tempinho de manhã até às 15 horas, altura em que se deslocava a pé para a biblioteca.

Passámos a residir na Covilhã. Foi então que deixámos de calcorrear aqueles quilómetros, de verão ou de inverno, depois de o meu pai terminar o horário de trabalho na Biblioteca Municipal, ao jardim, às 23 horas.

Depois de acabar os estudos na Escola Industrial e Comercial Campos Melo, tive o meu primeiro emprego na Câmara Municipal da Covilhã. Concorri ao pessoal maior vitalício e fui chamado para o serviço militar obrigatório.

Depois de ter terminado o Curso de Sargentos Milicianos, tive a sorte de não ser chamado para a Guerra do Ultramar, onde o meu irmão não teve a mesma sorte, pois foi para a Guiné. Procurei novos rumos de vida. Depois de ter concorrido para o BNU e de ter ficado aprovado com boa classificação, optei por passar a ser emigrante no meu próprio país. Assim aconteceu o tempo que vivi no Soito, do concelho do Sabugal. Deixei o salto para a Companhia Europeia de Seguros e, daqui, mais tarde, passei a trabalhar de conta própria.

Eram os tempos em que ainda não havia telemóveis. Muitas vezes, quando regressava de reuniões de trabalho em Lisboa, ainda sem ter sido construída a A23, e se passava pelas antigas estradas que iam dar ao cruzamento de Coruche, seguindo depois para  Mora,  Couço, Infantado, Ponte de Sor, Gavião e Arez, apressava a viagem para chegar ao início das curvas de Nisa para Vila Velha de Ródão, na esperança de ainda encontrar, já alta noite, um café ou uma taberna abertos onde houvesse uma cabine telefónica que me permitisse fazer uma chamada interurbana.  

 – Vem devagar! Eu não me deito enquanto não chegares!

Depois de passar por tormentas, por vezes com superiores que não olhavam a meios para atingir os seus fins, dediquei-me totalmente à escrita pro bono e à solidariedade, até aos dias de hoje, enquanto as minhas capacidades cognitivas mo permitirem.

Os amigos não pararam de aumentar. E as recordações de outrora também, mesmo aquelas em que comemos o pão que o diabo amassou.

Hoje, para além dos nefastos problemas de saúde que nos afetam enquanto octogenários, somos uma família feliz.

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