Opinião: José Pires Manso | Smart cities, governação e controle democráticos: desafios éticos e implicações para Portugal e outros países
Por Jornal Fórum
Publicado em 25/06/2026 09:00
Opinião

A expansão das smart cities tornou‑se um dos fenómenos mais relevantes da transformação urbana contemporânea. A integração de sensores, plataformas digitais, sistemas de vigilância e algoritmos de inteligência artificial redefine a forma como as cidades são planeadas, geridas e experienciadas. Contudo, esta evolução tecnológica levanta questões estruturais sobre governança algorítmica, ética pública e proteção de dados, exigindo uma reflexão crítica sobre o equilíbrio entre inovação e direitos fundamentais.

O caso da Suíça que nos está a inspirar, mas também os EUA e os países da U.E., Japão e Austrália, entre muitos outros, constitui um laboratório privilegiado para analisar estes processos. Cidades como Nova Iorque, Londres, Paris, Berlim, Zurique e Genebra e também Lisboa implementam sistemas de gestão de tráfego baseados em IA, gémeos digitais urbanos e infraestruturas de recolha massiva de dados. As tecnologias inteligentes baseiam-se na recolha e análise de grandes volumes de dados, incluindo dados pessoais, evidenciando a centralidade da vigilância digital na arquitetura das smart cities. Apesar da robustez institucional de países com a Suíça, investigadores como Jasmin Dall’Agnola alertam para uma confiança excessiva dos cidadãos na proteção democrática. A existência de legislação como o U.S. Cloud Act, que permite o acesso a dados armazenados por empresas norte‑americanas mesmo fora do país, demonstra que a soberania digital é permeável e que a proteção jurídica nacional pode ser insuficiente perante infraestruturas tecnológicas globalizadas e proteger o cidadão.

A densidade tecnológica das cidades de hoje com milhares de 73 milhões de dispositivos digitais em circulação, transforma os espaços urbanos em fontes contínuas de dados. As próprias redes sociais como o Facebook e tantas outras, dão um contributo importante. Estes dados alimentam modelos de IA que otimizam mobilidade, segurança e serviços públicos, mas também permitem a criação de perfis comportamentais altamente precisos. Como refere Fran Meissner, os padrões de deslocação quotidiana são suficientemente únicos para identificar indivíduos sem necessidade de dados adicionais. Este fenómeno coloca desafios significativos à transparência pública e à capacidade de escrutínio democrático, sobretudo quando empresas privadas desempenham um papel central na recolha, armazenamento e processamento de dados urbanos.

Portugal segue uma trajetória semelhante, embora com menor intensidade tecnológica. Lisboa, Porto, Braga e Aveiro, e outras cidades nacionais, têm investido em sensores urbanos, plataformas de mobilidade e sistemas de monitorização ambiental. No entanto, a discussão pública sobre limites éticos da vigilância, responsabilidade algorítmica e soberania digital municipal permanece incipiente. A ausência de uma estratégia nacional integrada para smart cities aumenta o risco de dependência tecnológica e de adoção acrítica de soluções privadas. A experiência suíça demonstra que mesmo países com forte capacidade institucional enfrentam dificuldades em garantir transparência e controlo democrático sobre sistemas de IA. Portugal e os portugueses, com menor densidade regulatória e menor literacia digital, encontram‑se potencialmente mais expostos.

A consolidação de smart cities eticamente responsáveis exige políticas públicas que articulem: auditorias independentes de algoritmos, com divulgação pública dos resultados, transparência radical sobre sensores, câmaras, fluxos de dados e contratos tecnológicos; soberania digital municipal, reduzindo dependência de infraestruturas privadas; direito à explicação algorítmica, garantindo que decisões automatizadas são compreensíveis e contestáveis; e ainda mecanismos de participação cidadã, assegurando que a digitalização urbana não substitui o debate democrático.

Em jeito de conclusão podemos dizer que cidades eficientes, virão possivelmente cidades menos livres. A análise comparada de Portugal com outros países e Portugal revela que a questão central das smart cities não é tecnológica, mas política. A inovação urbana pode melhorar a qualidade de vida, mas também pode reforçar assimetrias de poder, ampliar a vigilância e fragilizar direitos fundamentais. Portugal, ao observar casos como o suíço, deve reconhecer que a digitalização sem ética e sem regulação pode transformar cidades inteligentes em cidades intrusivas. A construção de smart cities verdadeiramente democráticas exige que a tecnologia seja subordinada ao interesse público — e não o contrário. Sem políticas robustas, o futuro urbano poderá ser eficiente, mas menos livre.

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