Assistimos, no passado dia 1 de julho, em Écône, à consagração de quatro novos bispos da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X (SSPX). Estas consagrações ocorreram sem o necessário mandato apostólico, uma autorização papal emitida pelo Sumo Pontífice. O Vaticano, após esta cerimónia, excomungou os quatro novos bispos, os dois bispos, ainda vivos, consagrados nas mesmas circunstâncias em 1988 e todos os clérigos que participem nas celebrações litúrgicas da SSPX. Uma das questões centrais desta quezília, prende com o Concílio Vaticano II (1962-1965).
É demasiado complexo o enredo para se poder descrever cabalmente aqui, mas a criação da SSPX pelo Arcebispo Marcel Lefebvre, está intrinsecamente ligada a um não reconhecimento de certos aspetos deste Concílio, mormente, a criação de um novo rito geral para o rito romano — a Missa Novos Ordu, celebrada usualmente na língua nativa do local de celebração, no fundo, a missa que hoje geralmente conhecemos e associamos ao catolicismo —, em substituição do rito anterior — a Missa Tridentina, agora também conhecida como Missa Tradicional Latina, celebrada em latim e que alguns mais velhos se lembraram. A língua é apenas um dos aspetos alterantes da Novos Ordu: também o rito da paz e a direção do celebrante são exemplos de alterações.
Tem havido, devido ao facto de a SSPX não reconhecer vários aspetos do Vaticano II, entre os quais o Missal de Paulo VI — que, acrescente-se, foi muito mais longe a nível de reformas que o próprio Concílio —, uma tentativa de central a questão na Missa Tridentina. Essa abordagem é completamente errada; mas, surpreendentemente, também o Vaticano a utilizou.
O problema da SSPX (e de outras organizações verdadeiramente cismáticas, que não reconhecem legitimidade ao atual Papa, portanto, sedevacantistas — coisa que a SSPX não é) é que as várias sanções utilizadas, até mesmo em momentos de levantamento das excomungações, visam a Missa Tridentina. Ora, vários católicos, por tradição familiar, escolha pessoal e costume, que nada têm que ver com qualquer organização que coloque em causa o Concílio Vaticano II, vêm-se limitados no seu culto particular e pessoal, pela sua própria Igreja, quando esta limita a possibilidade de celebração destas missas.
Parece-nos que a posição do Vaticano, na limitação da celebração deste rito, está intrinsecamente associada a estes grupos (semi)separatistas. Mas quem de facto se encontra limitado são católicos, em plena comunhão com a Igreja, muito vezes extremamente ortodoxos na sua liturgia semanal.
Além disso, o prolongamento da excomunhão aos leigos, na maior parte jovens, que participarem nas celebrações da SSPX demonstra falta de toque com a realidade dos jovens católicos. No mundo (pós)modernista, ainda que o mais importante continue sempre a ser a postura, pensamento e ação em imitação de Cristo, a Missa Tridentina surge, de novo, como alternativa a um mundo de pressas, de egos e de constante movimento; sem nunca se colocar em causa a primazia da Nova Missa, como todos conhecemos, a Missa Tridentina obriga também a uma maior preparação dos sacerdotes, a um aprofundamento do seu conhecimento e, por consequência, à transmissão de uma mensagem mais perfeita. Terminamos com este exemplo do Bispo de Oslo, em reação à questão SSPX. Fredrik Hansen, percebendo o contexto e a presença de muitos jovens em Écône, garantiu o aumento de Missas Tridentinas semanais nas suas dioceses.
Não há uma, na verdade, uma oposição entre Missa Tridentina e Novos Ordu; há uma bela relação de complementaridade para os católicos poderem louvar a Deus e, Este, poder ser Louvado.