Opinião: Miguel M. Riscado | O Messianismo, mais uma vez…
Por Jornal Fórum
Publicado em 02/07/2026 09:00
Opinião

Tendemos, numa abordagem ocidental, a colocar política e religião em campos que não se misturam, como água e azeite. Assim deverá ser, salvo nas teocracias e nas religiões fantoches dos Estados. Mas uma outra dimensão e relação entre estas duas áreas que é atualmente percetível e que pode, em grande escala, ter consequências nefastas para  a humanidade e pelo respeito à dignidade humana.

Façamos um brevíssima resenha histórica para depois concretizarmos. Em 1984, Benjamin Netanyahu, atual primeiro-ministro de Israel, iniciou funções como embaixador de Israel junto das Nações Unidas, em Nova Iorque. Aí, começou a ser aconselhado espiritualmente e a frequentar o círculo íntimo de Menachem Mendel Schneerson, conhecido como Rebbe (ou o Rebe de Lubavitch), um rabino ortodoxo extremamente popular e admirado pela comunidade judaica estadunidense. Rebbe assumira a liderança do movimento Chabad, uma corrente do judaísmo hassídico — um movimento espiritual que visava a compreensão por todos da Torah e não apenas por eruditos, surgido na Europa de Leste, com imensos membros, hoje, em Israel e nos EUA; membros esses conhecidos pelo sua indumentária tradicional. Com Rebbe, o Chabad tornar-se-ia uma movimento global, com muitas semelhanças à popularidade de alguns movimentos judaicos de e pós Segundo Templo, maxime, os Cristãos. Muitos destes membros, no final do séc. XX, desenvolveram mesmo a crença de que Rebbe poderia ser o Messias — o Moshiach — o futuro rei humano sucessor de David. Rebbe nunca assumiu ou tentou aproximar a sua pessoa dessa figura, mas ensinava a preparação dos judeus para essa chegada, isto é, a obediência à vontade de Deus como antecipação da vinda do Messias. Contudo, há relatos que Rebbe teria confidenciado a Bibi que este teria uma importância, uma relevância, um papel nessa chegada. Em 2011, décadas após o falecimento de Rebbe, Bibi tomaria a palavra na Assembleia Geral das Nações Unidas e diria que (em tradução livre): “[e]m 1984, quando fui nomeado embaixador de Israel nas Nações Unidas, visitei o grande rabino de Lubavitch. Ele confidenciou-me — e, senhoras e senhores, não quero que nenhum de vocês se sinta ofendido, pois, pela minha experiência pessoal servindo aqui, sei que há muitos homens e mulheres honrados, muitas pessoas capazes e decentes  que servem as suas nações neste lugar... — mas eis o que o Rebe me disse: que eu serviria numa casa de muitas mentiras. E acrescentou: lembre-se de que, mesmo no lugar mais sombrio, a luz de uma única vela pode ser vista de muito longe”. Este trecho, retirado do discurso de Netanyahu a 23 de setembro de 2011, demonstra a dimensão metafísica da mensagem do atual primeiro-ministro israelita.

Há uma crença, pessoal, mas alimentada por vários círculos religiosos e pseudo-políticos que tenta criar uma ideia de sobrenaturalidade de várias figuras políticas. Bibi nunca o escondeu e, verdadeiramente, o judaísmo tem essa vertente de ligação entre política e religião sem qualquer escândalo. Aliás, uma interpretação sincera e honesta das palavras de Rebbe, conclui pela positividade da sua mensagem e não pela segregação e pelo ódio. O problema está na parca capacidade hermenêutica dos políticos; pior, dos mega-políticos mundiais. Se a ligação Bibi-Rebbe demonstra uma interiorização de um sentido de missão, seja ele qual for, pelo primeiro-ministro de Israel, o que observamos hoje com outros líderes mundiais é o apoio religioso, neo-messiânico, pseudo-profético de figuras completamente desligadas do mundo real. O apoio evangélico, sem filtro, ao Presidente Donald Trump, por exemplo, demonstra precisamente isso. Quanto vários líderes de congregações protestantes se juntam na Sala Oval, estendem as mãos e apontam para o Presidente, como que indicando a sua chegada triunfal, perde o sentido a relação político-religiosa. E neste caso é bem mais grave: a mensagem cristã (ainda que protestante e não católico-ortodoxa) é precisamente a oposta perante os políticos poderosos, ou seja, a água e o azeite, a Deus e a César. E não fazer de César um Deus…muito menos um messias transreligioso.

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