Caros leitores: chegámos hoje ao centésimo texto escrito por mim neste jornal. Com raras exceções, para além das férias (que se aproximam novamente), estamos juntos semanalmente. Para quem lê, é como bolsa de mulher, cabeça de juiz ou rabo de bebé: nunca sabemos o que de dentro vem. Já para quem escreve, o processo é semelhante. Depende da inspiração, do momento por que o escritor passa, dos assuntos que permeiam a mente daquele que vai, através das letras, laçar palavras para o além. É assim. A graça é justamente esta. Dá-se um tiro para o alto, sem saber quem será positivamente atingido. A única certeza que temos é a de que vamos errar o tiro.
Eis que esta coluna já poderia ser outra. A cento e uma. Isto porque, na semana passada, falhei. Não estava em condições de conectar-me com o além. Essa ligação invisível que une quem escreve e quem pretensamente vai ler. E entre cumprir uma obrigação e trabalhar com prazer, opto sempre pela segunda opção. Afinal, há momentos em que ficamos só com a obrigação e sabemos que, sem amor, não há tarefa que se sustente. É como o casamento. Numa semana podemos estar desconectados, mas quando este comportamento se repete, não há relação que perdure, honestamente.
Há também a malandragem. É como aquele olhar desviado do prumo. Como quando os impulsos nos atiram à silhueta de uma mulher alheia, por exemplo. Para quem escreve, o nome do diabinho é a inteligência artificial. Não sei se há algum escritor que dela faça uso. Talvez. Também não ando a ler tudo o que aparece para perceber se foi ou não escrito com a «ajuda» dela. De qualquer forma, pedir ao computador para que ele escreva por nós é o mesmo que pedir ao leitor que o computador leia por ele. Perde-se a conexão e entra-se num vazio sem fim.
Há uma certa magia nesta tarefa semanal de escrever. Nunca sabemos, com tanta antecedência, que assunto iremos abordar. Do mesmo jeito, nunca sabemos quem, quantos, onde e em que momento irão ler. É como a parábola do semeador. Em vez de sementes, lançam-se palavras. Na hora em que escrevemos, estão todas juntas, unidas, como um tecido. Formam frases, parágrafos, pensamentos. Mas depois de ir para o jornal, passa pela redação, impressão e distribuição, o texto deixa de ser nosso e passa a ser sabe-se lá de quem. É isso que encanta o escritor. Faz-se o bem sem saber a quem. Mesmo o texto mais rude tem um quê de altruísmo.
Aqui, neste espaço, gentilmente cedido por este jornal, repaginado assertivamente à categoria de revista, partilhamos opiniões, dúvidas, certezas, esperança e todo o tipo de mensagens que acreditamos poder tocar o coração das pessoas. É por esta razão que o meu texto de hoje tem este pendor, mais íntimo, mais confessional, quase epistolar. Era preciso. Afinal, esses sentimentos, acredito, fazem parte do grupo de vozes que falam aos nossos ouvidos, que ditam as palavras, os assuntos e, de vez em quando, dão formato literário ao que escrevemos. E foi assim que surgiu este texto. Acordei com as vozes a dizer-me: se falhaste, pede desculpas! Que venham as próximas cem!