Opinião: Victor Nave Oliveira | O GRITADOR DA GOLDRA ou DEGOLDRA
Por Jornal Fórum
Publicado em 16/07/2026 14:50
Opinião

Na minha habitual caminhada das manhãs pelos jardins da baixa da cidade, fui ao tão falado parque da Goldra ou Degolgra1, mesmo que a placa de inauguração de 15 março 2009 o registe como GOLDRA.

                Entrei junto ao Museu dos Lanifícios, na minha primeira observação, verifiquei a falta de limpeza quer do arvoredo quer dos canaviais que fazem de margens da ribeira da Degoldra, algumas das árvores já tapam parte do telhado do edifício do museu dos lanifícios, a margem direita da ribeira é parecida com a Amazónia, um perigo nesta época de risco de incêndio, tanto é combustível acumulado.

                Caminho para sul pelas suas artérias, comecei a encontrar barreiras, vedações de arames que impedem a entrada no recinto, indicando logo o perigo, que por ali reside.

                Entrei no dito parque, outrora orgulho quer dos residentes daquela colina da Rua José Ramalho, quer dos seus visitantes, a cada metro que avançava, mais me sentia revoltado com tanta degradação, obrigando-me a dar razão a quem tem feito ecos da tal desgraça de um espaço que já fora em tempos um espaço aprazível para estudantes, crianças e famílias.

                Conforme foi percorrendo os patamares da Goldra ou Degoldra, sentia-me como se estivesse num teatro de guerra, tal como nos é apresentado todos os dias no écran da televisão, sobre zonas do leste europeu e do médio oriente na zona do “Crescente Fértil”.

                Ruínas e mais ruínas, até poderia ser sinal de vandalismo, mas qualquer um conclui que não, mas, sim o total abandono pelas entidades com gestão daquele espaço.

                Já na saída, parei e olhei, para a minha retaguarda, pensei, isto está assim talvez porque o nosso município num ato de solidariedade com os povos da Ucrânia e de Gaza, tornaram este parque neste estado, para nos demonstrar a destruição daqueles lugares, e, para que das nossas memórias não se apaguem as atrocidades cometidas por aquelas latitudes até me resignei.

Mas, um GRITO silencioso e ensurdecedor, chamou-me! era o GRITADOR com suas mãos em concha junto à boca para melhor se fazer ouvir, “ISTO NÃO É SOLIDARIEDADE, É DESLEIXO, FALTA DE RESPEITO PELA COMUNIDADE COVILHANENSE”.

                Fiquei surpreendido, com tal chamada de atenção por aquela estatua que se farta de gritar e o seu alerta não chegue até aos Paços do Concelho, talvez só eu oiça o Gritador, continuo a minha caminhada para os outros jardins mais abaixo, o do Lago e Artes e esperançado de que eu leve o seu grito a quem me ler.

1 Degoldra refere-se quase exclusivamente à Ribeira da Degoldra, um curso de água histórico na Covilhã. O termo é de etimologia incerta, mas está fortemente associado a "Goldra" (o lírio-dos-tintureiros), planta outrora abundante na região e usada na indústria de lanifícios.

2 O GRITADOR (obra de arte pública do escultor Moreira das Neves (1954-2025), existente na entrada do parque).

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