Opinião: Luís Mais | DESCULPEM, MAS É A NOSSA NATUREZA. (A TI PAI/ MÃE)
Por Jornal Fórum
Publicado em 13/08/2026 09:00 • Atualizado 13/08/2026 09:16
Opinião

Autor: Luis Maia – Professor Universitário UBI / Doutorado pela Universidade de Salamanca - Espanha 

Segundo reza a Mitologia Grega, Zeus (pai do Olimpo, Deus dos Deuses e Semideuses) olhou para a sua obra terrena e considerou que lhe faltava algo digno da sua força criadora. Existiam milhares de espécies de animais e vegetais... Mas o mundo terráqueo parecia algo... absorto, mecanizado, onde a liberdade dos seres existentes era absolutamente Durkeimiana... 

Era uma socialização hierarquizada por ciclos, com alguns fenómenos de revolta... Mas apenas isso (assim se acredita serem os animais ditos irracionais... ou não). Então Zeus terá julgado que a esta terra faltava um ser diferente, um animal especial, um humano, mas ainda um animal... deveria ser, contudo, diferente e especial em relação aos outros. Incumbiu um dos seus filhos, Prometeu (um semideus) de criar esse ser. 

Corroído pela inveja desta aparente distinção, Epimetreu, seu irmão, pediu-lhe que lhe deixasse levar a cabo tal empreitada. Afinal não se tratava mais que criar um ser, animal.... Apenas um pouco mais divertido que os já existentes. Sem darem conhecimento a Zeus, Epimetreu criou então o Homem (os homens e mulheres como os que conhecemos hoje, apenas que sem qualquer laivo de inteligência que os diferenciasse dos demais animais). 

Epimetreu mais não fez que criar um ser morfologicamente diferente, poder-se-ia dizer, mais belo até que os outros animais... Mas disso não passavam, animais irracionais, humanos, mas irracionais, como os demais. 

Antes de apresentarem a obra final a Zeus, Prometeu mostrou-se claramente descontente com o que havia feito Epimetreu. Foi então que Prometeu tomou uma decisão livre! Impensável socialmente! Antiética, antimoral, usurpadora de qualquer sentido organizador do Olimpo. Aquele ser que lhe havia sido incumbido da sua criação, merecia algo de especial. Para Prometeu, o humano merecia ser dono da sua própria perceção consciente, da sua razão, da sua inteligência.... Enfim, merecia ser portador dos conhecimentos técnicos e da sabedoria apenas reservados aos Deuses e Semideuses (note-se que a pena para quem não respeitasse esta regra seria o banimento, como o reservado ao Bode Expiatório Hebraico). Pela noite, Prometeu roubou a Chama do Conhecimento do Olimpo, e impregnou-o na alma humana. Havia sido criada a espécie humana, Sapiens sapiens! Pela Liberdade individual de um Semideus!!! 

Zeus, furioso, e para manter a Ordem e Liberdade Social (mostrar que não se pode quebrar uma regra instituída desde o início dos tempos, sem consequências para o seu autor), ordenou que Prometeu, seu filho, fosse agrilhoado no cume de uma montanha, que lhe fossem feitos golpes no quadrante inferior direito para que o fígado pudesse ficar exposto, e para que o sangue e a exposição visceral pudessem atrair os abutres. Tal ocorreu então. E ainda hoje Prometeu está agrilhoado em sofrimento. É que o fígado tem uma grande capacidade de regeneração. E apesar de todos os dias as aves carnívoras se alimentarem das suas vísceras, como Semideus que é, o fígado de Prometeu vai-se regenerando, até ao fim dos tempos. 

Agrilhoado, em suplício, em sofrimento... Até ao fim dos tempos. 

Pela sua liberdade individual. Quebrou a livre ordem social do Olimpo, mas deixou-nos o fogo do conhecimento.... Tornou-nos humanos inteligentes (não deixamos de pensar que muitos humanos devem ser apologistas da justeza do castigo atribuído a Prometeu... todavia só podem pensar acerca do assunto, devido justamente à Liberdade Individual de Prometeu.... Irónico o mundo não?).

Então, o próprio Prometeu agrilhoado recorda a qualquer um que, aquilo que não nos pertence não nos deve ser dado?

Sei que a pergunta pode ser controversa, mas depende do ponto de vista. Ecologicamente, por exemplo, o ‘Fogo do Olimpo’, o fogo da técnica, roubado aos deuses por Prometeu, para dar aos Homens, apenas deveria servir para satisfazer as necessidades funcionais da espécie humana; mas se olharmos para a história da humanidade, facilmente constataremos, não obstante tudo o que de bom se construiu pelo conhecimento e técnica, que o poder do conhecimento tem, por vezes, consequências catastróficas... e o seu preço é, vez por outra, demasiado alto!

Pensemos então no poder que temos, tenha este sido dado por uma qualquer entidade, ou tenha sido desenvolvido pelas simples normas estipuladas ao longo do desenvolvimento dos tempos: temos o poder de amar e não ser negligentes.

Temos o poder de partilhar o nosso conhecimento e aceitar aquele que não temos.

Temos o dever de acarinhar e contribuir para a felicidade dos que nos rodeiam.

Temos a obrigação para com os nossos familiares, e ninguém deveria invocar a necessidade de ser feliz, e por isso não ter tempo para os outros.

Tal como Prometeu, temos a obrigação de não ser negligentes!

Se passar a não “olhar para o lado”, irá sobrar muito espaço na minha vida para ser preenchido a cuidar dos outros e a contribuir como um ser proactivo, socialmente preocupado.

Se nós a abandonar a nossa própria negligência, temos a certeza, o verbo amar será mesmo resgatado em nós, e por conseguinte, naqueles que nos rodeiam!

Já de há muito tempo desisti de me conformar com um discurso e comportamento esperado socialmente. 

Para não sermos negligentes com as nossas emoções e realidade psicológica, bem como a dos outros, temos que ter a coragem de ser diferentes.

Se amamos alguém, sentimo-nos na obrigação de lhes dizer (se o for adequado, obviamente). Já não esperamos que apenas uma simples relação em que os elementos sintam que “as coisas” devem andar bem, pois não existem grandes situações de stress e ansiedade.

Isso já não chega para nós.

Em grande medida tal começou a fortalecer-se em nós pelo facto de atendermos semanalmente dezenas de pacientes que lutam para poder encontrar uma forma de comunicar de forma adequada com a vida.

A falta de amor sentida por centenas de pessoas que procuram apoio psicoterapêutico deriva em grande medida da forma como todos nós vamos plantando as árvores que queremos colher no futuro. Parece-nos utópico querer seguir um padrão de vida onde as emoções sejam postas de parte durante a maior parte da vida e depois exigirmos que estejam presentes quando estamos mais fragilizados, ou porque não dizer mesmo, sozinhos e velhos, muitas vezes, porque fomos nós que contribuímos para essa solidão. 

O maior amor e conhecimento, é o que existe dentro de mim.... depois é só uma questão de partilha... para quem tiver coragem!

 

Para contactar o autor desta obra, é favor consultar:

- Página web de Luis Maia: www.luismaiapsicologia.com

- Cédula Profissional da Ordem dos Psicólogos, n.º 102

- Professor Doutorado – Universidade da Beira Interior 

Mestre em Neurociências pela Faculdade de Medicina de Lisboa

- Neuropsicólogo Clínico, Doutoramento (USAL - Espanha)

- Especialista Médico Jurídico – Pós-Doutoramento (Instituto de Medicina Abel Salazar -     Porto, Portugal)

- Licenciatura em Neuropsicologia Clínica (USAL - Espanha)

- Licenciatura em Proficiência Investigativa em Psicobiologia (USAL - Espanha) 

- Licenciatura em Psicologia Clínica e da Saúde (Universidade de Minho - Portugal)    

- Perfil completo no CV- ORCID - https://orcid.org/0009-0008-0241-799X 

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