Dando continuidade a um trabalho dos neurologistas Belmira Nunes e Álvaro Machado, apresentado neste Jornal, sob o tema “Quando a Memória Falha”, no início de novembro passado, trazemos ao seu conhecimento mais alguns pormenores interessantes que a todos deverá interessar.
O enigma do Alzheimer
Mais de cem anos após a sua descoberta, a Ciência ainda não identificou o mecanismo exato que provoca a doença de Alzheimer, nem os meios eficazes para a sua prevenção e tratamento.
Envelhecer, contudo, não significa perder autonomia cognitiva. É possível agir, individual e coletivamente, para proteger a mente – começando pelo reconhecimento dos fatores de risco que podemos modificar.
O que é a demência?
“Demência” não é sinónimo de Alzheimer.
O termo designa a perda de capacidades cognitivas funcionais anteriormente adquiridas, causada por uma degeneração do cérebro.
O cérebro adulto pesa entre 1,1 e 2 kg e contém cerca de 86 mil milhões de nerónios. Com a idade, é natural perder rapidez mental e capacidade de memorização, mas a aprendizagem e o raciocínio podem manter-se ativos por toda a vida.
A memória e o tempo
Platão, pela voz de Diotima de Mantineia, escreveu em O Banquete (384 a.C.):
“O esquecimento é a saída do conhecimento, e o estudo, fabricando de novo uma nova memória, salva o conhecimento”.
Séculos depois, a Neurociência confirmou essa sabedoria antiga. O esquecimento faz parte do ciclo da memória – mas, no Alzheimer, o processo torna-se irreversível e destrutivo.
As alterações cerebrais podem iniciar-se de 15 a 30 anos antes dos primeiros sintomas, o que dificulta o diagnóstico precoce.
Fatores de risco e prevenção
Entre os principais fatores de risco destacam-se:
. Idade, hipertensão arterial, diabetes, obesidade, tabagismo e alcoolismo.
. Sedentarismo: a prática regular de exercício físico reduz o risco de demência.
. Má qualidade do sono: dormir menos de cinco horas por noite aumenta o risco.
. Isolamento social: Segundo os Censos de 2021, mais de um milhão de portugueses vivem sós – metade são idosos.
A presbiacusia (perda auditiva progressiva), a hipertensão e a diabetes mal controlada também se associam a maior vulnerabilidade cognitiva.
Cuidar da mente ao longo da vida
A alimentação equilibrada, o convívio social, a leitura e a curiosidade intelectual protegem o cérebro e a saúde mental.
Como afirma a psicóloga Catarina Ruas Antunes:
“Existe uma rede de (des)informação sobre a doença mental e temas que outrora foram tabu, mas que hoje fazem parte da narrativa do dia a dia.”
Sigmund Freud, no seu ensaio O Mal-Estar na Civilização, já associava a ansiedade moderna à repressão dos instintos e à repressão social – um diagnóstico que se mantém atual.
Viver com propósito
Envelhecemos todos de maneira diferente.
A genética pesa, mas os fatores ambientais e os hábitos de vida são decisivos. O envelhecimento saudável passa por manter o corpo ativo, a mente curiosa e os afetos próximos.
O dia 10 de outubro é o Dia Mundial da Saúde Mental. É oportunidade para recordar que cuidar da mente é cuidar da vida – todos os dias, em todas as idades.
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