As últimas eleições presidenciais demonstraram uma boa afluência em comparação com momentos eleitorais mais recentes. Contudo, a abstenção continua num valor abismal: 47,74 % dos cidadãos eleitores não foram às urnas. No contexto do séc. XXI, pode até parecer um número razoável ou decente; mas não é. São quase cinco milhões e meio de pessoas, indivíduos, cidadãos que vivem vidas normais e passam por nós todos os dias, que não têm o mínimo interesse na vida política nacional. Durante algumas décadas, tentou impor-se a lógica do direito e dever cívico, da responsabilidade social; essa estratégia é insuficiente e intelectualmente desonesta para com os não votantes.
O ser humano é cativado e cativante. Com André Ventura vimos um bloco de eleitorado que nunca havia votado, a deslocar-se para a urna. Mas o efeito do Chega é limitado a um certo eleitorado e extingue-se rapidamente. Já os dois maiores partidos não conseguem hoje acertar com uma escolha carismática para a sua liderança. Luís Montenegro demonstrou-se um produto das circunstâncias, com falhas graves na escolha de staff político e na estratégia comunicativa. José Luís Carneiro, surpreendentemente, negou a possibilidade, ainda que tacitamente, dos militantes escolherem outro líder. Seria positivo um confronto interno no PS, para teste de armas. Ficamos com as pistolas de água do Secretário Geral, insuficientes para liderar quer o país, quer a oposição. No caso da direita parlamentar, CDS manterá o seu representante, desde que se coligue e IL crescerá significativamente caso PSD não se consiga autogovernar. Passos Coelho, ainda assim, continuará a pairar. A esquerda é mais picosa. Sabemos que é um eleitorado que não se inibe de abandonar o seu partido-base para votar PS, caso seja estritamente necessário. Dependerá muito das circunstâncias concretas envolventes ao acto eleitoral.
A chave para a democracia evolutiva, pós-abril e de consolidação, sem luta binómica, só pode surgir ao centro e tem de ter como impulsionadores os cinco milhões de eleitores “fora de jogo”. O exemplo do Chega demonstra a possibilidade de aumento de percentagem do partido pelo aumento de votantes. Sem se mexer nas percentagens dos partidos clássicos, o aumento da participação numa nova força centrista, casuísta e equilibrada, traria representatividade e diminuição do centralismo. A própria regionalização também o varia, mas corre-se o risco de ficar ab initio partidarizada. A revisão constitucional de que tanto se fala, não pode ser de pendor ideológico, mas sim funcional. Só a diminuição da relevância dos partidos pode aumentar a transparência e a participação efetiva de toda a população.
Não podemos, com pena, ir ao ponto da democracia basista e puramente direta; mas o atual sistema afasta a competência profissional e social e substitui-a por uma meritocracia interna ao partido, com uma inversão de valores meritórios e com a valorização de lealdades pessoais e interesses ocultos. Os partidos são o próprio cancro da democracia. Quando vemos o Chega criticar o sistema, na verdade critica-se a si próprio. Os partidos são o sistema. E apenas o seu fim, enquanto garantia de representação política, será uma consolidação plena da democracia. Salazar também maldizia os partidos, por colocarem os seus interesses à frente dos interesses da nação; estou, por isso, em território pantanoso. Mas eu defendo que os partidos devem ser substituídos por associações de interesses, de profissões e de causas concretas. Não é justificável que a democracia do cidadão passe, nunca, pela peneira dos partidos. O acesso à chave que referi está, então, em chegar às pessoas que nunca votaram…essa é a parte mais difícil. Depois, como roldanas, naturalmente existirá evolução.