Opinião: Manuela Cerdeira | Entre as Regras e a Realidade
Por Jornal Fórum
Publicado em 12/03/2026 09:00
Opinião

A política tem momentos curiosos, em que os acontecimentos internos e os grandes conflitos internacionais, acabam por levantar a mesma pergunta essencial:

-Quem é que respeita afinal, as regras que sustentam a vida coletiva?

Hoje em Portugal, a governação de Luís Montenegro enfrenta não só um escrutínio normal da oposição, o que não deixa de ser natural em democracia, como enfrenta também críticas vindas do seu próprio espaço político, onde entre outras, se salienta uma voz mais agressiva e dizem alguns, que é uma figura de referência do PSD e que já foi também primeiro ministro, nesse famoso tempo da Troika, estou a falar claro está do tão conhecido Passos Coelho.

Passos Coelho depois de estar calado durante muito tempo que nem uma múmia, vem agora apontar o dedo a uma governação, que tem estado não só a enfrentar muitos imprevistos, mas ao mesmo tempo tem estado a governar com certa eficiência, dando respostas a tudo e a todos, levando a cabo reformas estruturais muito importantes para o país, pois como é do conhecimento de todos, nos últimos oito anos de governação Socialista, tudo esteve completamente paralisado.

A crítica política é legítima e faz parte da vida democrática, no entanto, quando essas intervenções assumem um tom particularmente duro ou constante, podem transformar-se numa espécie de “atropelo político” que acaba por enfraquecer a autoridade de quem governa.

É claro que não estou a falar de exigir silêncio ou mesmo uma unanimidade dentro de um partido, estou a falar da responsabilidade política, que também ela implica ponderação e sentido institucional e quando ele não se verifica é mau sinal.

E foi por isso mesmo que Luís Montenegro tranquilamente, já informou que quer convocar eleições diretas já no próximo mês de maio, informando de que se houver um caminho alternativo, ele que seja apresentado.

E como já foi bem aclamado por Passos Coelho e que parece ser uma grande vontade   deste senhor e que é a formação de uma geringonça de extrema direita, composta pelos três partidos mais à direita em Portugal, sendo eles o PSD, a IL e o CHEGA e que parece ser um cenário, que em breve se poderá tornar realidade.

Todo este cenário contraria em absoluto as ideias de Montenegro, pois para ele continua a vigorar o “Não é Não” e é bem óbvio, que juntar estes três partidos, é sem dúvida descaracterizar cada um deles e para mim, será sem sombra de dúvida, uma falta de originalidade de Passos Coelho e também uma falta de carácter em política.

De fato criticar um governo com grande entusiasmo, é sempre mais cómodo do que governar e seria desejável, que existisse mais lucidez no debate político.

Mas curiosamente, esta minha reflexão sobre regras e limites do poder, encontra um eco ainda mais vasto, no plano da política Internacional, mais propriamente nessa recente escalada de tensões, que envolvem o Irão no confronto com Israel e os Estados Unidos, onde se levanta também aí uma questão fundamental, sobre o respeito pelas normas que regem a comunidade internacional.

Foi desde o fim da Segunda Guerra Mundial, que a ordem global procurou assentar nos princípios estabelecidos pela Carta das Nações Unidas, documento fundador da Organização das Nações Unidas, carta esta que estabelece um princípio essencial e que diz que:

-O recurso à força, deve ser sempre a última opção, pois os conflitos devem ser resolvidos pela via da diplomacia e devem carecer da legitimidade internacional.

Esta ideia simples e muito ambiciosa, tinha como fundamento obstar que o mundo voltasse a cair numa espiral de guerras, motivadas apenas por interesses estratégicos ou mesmo por rivalidades de poder, contudo, com o avançar dos tempos, esses princípios não respondem às situações mais dramáticas que ocorrem no mundo.

Quando assistimos a povos a viverem sob regimes autoritários ou sob repressão violenta, a aplicação rígida do princípio da soberania de Estados, pode mesmo chegar a transformar-se numa espécie de paradoxo moral e em nome do respeito pelas fronteiras e pela legalidade internacional, a comunidade internacional acaba muitas vezes por assistir passivamente, ao sofrimento de populações inteiras.

Em pleno século XXI, um século que é caracterizado pela revolução digital, pela globalização e pelo avanço da inteligência artificial, temos que concluir, que esta carta está completamente ultrapassada, porque revela algumas limitações, pois aquilo que foi criado para proteger a paz mundial, pode em certos casos transformar-se num instrumento de inação, em especial perante regimes repressivos.

Pois o que existe curiosamente, é um paradoxo na política internacional e as regras que deveriam proteger os povos, acabam por vezes por proteger os regimes, que sacrificam o seu próprio povo.

Resumindo, se em política interna, a crítica interna excessiva pode fragilizar um governo, já no plano internacional, o excesso de regras e protocolos, quando aplicados sem humanidade, podem matar literalmente povos indefesos.

Mas afinal que lição podemos tirar de todas estas situações?

Podemos retirar uma lição simples, que as regras não são suficientes, se não forem moldadas pela coragem de proteger os vulneráveis, porque sem isso, tanto na política de um país, como nas relações entre nações, o poder transforma-se em espetáculo vazio e os princípios em palavras ocas.

Esperemos então por mudanças mais ambiciosas e que sejam verdadeiramente mais humanistas e que os dissidentes, deixem de criticar apenas por criticar, porque quando apontamos um dedo a alguém, temos três virados para nós.

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