Opinião: Manuela Cerdeira | O tempo escrito em papel
Por Jornal Fórum
Publicado em 16/01/2026 09:00
Opinião

Durante décadas, os jornais centenários tornaram-se consciência crítica, memória coletiva e ainda um espelho do tempo, pois eles conseguiram sobreviver a regimes, a guerras, a censuras e até a revoluções tecnológicas.

Mas num tempo em que tudo é feito a uma velocidade louca, num tempo em que parar é mesmo considerado morrer, falar de jornais centenários, é ao mesmo tempo, refletir sobre o valor do jornalismo que resiste, que questiona, que permanece e que sabe acompanhar essa mesma evolução.

O Noticias da Covilhã, é um desses muitos jornais centenários, que ainda existem em Portugal, tendo sido fundado no ano de 1913 sob o nome de “A Democracia” foi no ano de 1919, que se viria a tornar oficialmente o famoso “Notícias da Covilhã” e ao mesmo tempo, afirmava-se como a publicação regional mais antiga em circulação no distrito de Castelo Branco e de acrescentar ainda, que no nosso país, existem dezenas de jornais centenários regionais ainda em atividade, prova disso são os estudos académicos e registos especializados, que comprovam que até Outubro de 2022, existiam pelo menos, quarenta jornais regionais centenários ainda ativos.

Mas afinal o que mantém estes jornais ainda ativos?

Muitos são os fatores que lhes dão sentido e o que tem maior relevo, é essa proximidade real das pessoas, pois são eles que contam histórias que mais ninguém conta, são no fundo arquivos vivos das mais variadas regiões e que ao longo dos tempos, acabavam por construir uma confiança ao longo de gerações.

Mas um bom jornal regional para chegar a ser centenário e ao mesmo tempo, para continuar a resistir ao tempo, precisa de ter essa função bem necessária e útil, para que exista uma democracia saudável, a função de fiscalizar autarquias e denunciar injustiças e ao mesmo tempo, possuir uma capacidade de adaptação aos novos tempos e a essa velocidade louca, que é cada vez mais exigida pelas novas sociedades e é aqui que começam a residir os principais problemas desses jornais centenários regionais, a par de outros problemas, que se tornam demasiado evidentes.

É bem verdade que um jornal se sustenta essencialmente da publicidade e a nível regional, é bem difícil captar essa mesma publicidade, mas para que se capte publicidade, é necessário também, que o próprio jornal seja interessante e diversificado e que mantenha e saiba captar a atenção do leitor, tendo claro está os seus tentáculos bem dispersos, pelas mais variadas áreas da região e isso faz-se com muito trabalho e dedicação e ao mesmo tempo, captando opiniões das mais diversas áreas, onde se vislumbre um pluralismo como princípio editorial, porque um jornal só ganha autoridade, quando mostra que não escolhe vozes por afinidade ideológica, mas sim  por relevância pública e quando um jornal perde estes valores, perde toda a sua credibilidade.

Convenhamos que quando um jornal não apresenta muita publicidade, algo raro acontece, ou existe uma diversidade de receitas vindas não se sabe bem de onde, ou  existe ainda uma relação muito bem delimitada com o poder local, sobretudo quando existe apoio da câmara municipal e se este for o caso, teremos que assistir a uma separação absoluta entre esse mesmo apoio e a linha editorial, onde as criticas ao poder local continuem e onde a própria câmara, não interfira nos conteúdos do referido jornal e acreditem, quando isto não acontece, os próprios leitores apercebem-se perfeitamente do que realmente se passa e tornam-se de imediato, juízes em causa própria.

O Noticias da Covilhã anunciou na sua página do Facebook, de que iria suspender a edição impressa, mantendo a ligação com os seus leitores, através das redes sociais e é de estranhar que só agora o faça, pois a mim particularmente, custa-me imenso ver este jornal ser distribuído gratuitamente e ao mesmo tempo servir de forro às estradas da cidade, sendo não só uma mostra de desinteresse das pessoas, como de todo um desinteresse pelo trabalho jornalístico, a par de um gasto de dinheiro público ou privado, investido na impressão do mesmo e a isto, eu chamo não só desperdício material, mas também desperdício de cidadania.

Em suma, os Jornais centenários sobrevivem porque dão voz à comunidade e ao mesmo tempo, fiscalizam o poder local e quando isso é ignorado, toda a sua missão é ameaçada, espero que estes procedimentos, que eu não vou sequer dar-me ao trabalho de classificar, consigam ser corrigidos e que o jornal em causa, continue a cumprir esse papel importante, que a sociedade lhe confiou em tempos, tempos esses já há muito idos.

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