O ódio é um dos piores sentimentos do ser humano. Ainda assim, todos podemos dizer que já o sentimos, muitos de nós, mais do que uma vez ao longo da vida. Podemos afirmar que não gostamos de alguém ou que não simpatizamos com essa pessoa, mas dizer que a odiamos carrega um peso muito maior. A verdade é que, nos dias de hoje, o ódio banalizou-se. Já não precisa de razões profundas para existir. E assim, quase sem darmos conta, habituámo-nos a viver rodeados de hostilidade, como se isso fosse parte natural do mundo, quando, na verdade, não deveria ser.
O ódio está em todo o lado, até nas pessoas escondidas atrás de um ecrã. Os chamados “discursos de ódio” contribuíram para a sua banalização e têm sido cada vez mais tema de conversa nos últimos tempos. É problemático? Claramente que é. Mas também é ridículo alguém esconder-se atrás de um perfil falso ou de um nome qualquer, como um camaleão que muda de cor para se confundir com o ambiente e, nesse disfarce, ferir sem ser visto, para difamar o outro e, no fundo, dizer aquilo que nunca teria coragem de dizer pessoalmente. E isto não acontece apenas com famosos: os anónimos também sofrem.
Mas infelizmente este problema não se limita apenas ao ecrã, estende-se à vida real. O ódio sai das palavras escritas e ganha gestos, olhares e atitudes. Manifesta-se em comentários disfarçados de brincadeira, em exclusões silenciosas, em julgamentos rápidos baseados na aparência, na origem ou na forma de pensar. É um ódio menos visível do que o das redes sociais, mas muitas vezes mais profundo, porque fere de perto e deixa marcas que não se apagam com um simples desligar de dispositivo.
O ódio encontra-se até nos discursos políticos, pelos partidos de extremos, por exemplo. Partidos que pretendem semear o ódio, a instabilidade, a discórdia, para colocarem a população de um país de costas voltadas, e no fim lucrarem com isso. O que lucram? A verdade é que não sei, porque quem pretende levar o país para a frente não o deve fazer colocando o país em desordem total, a todos os níveis.
A verdade é que, das coisas que mais magoam, deve ser alguém ouvir a frase “eu odeio-te”. Sim, magoa. Mas, muitas vezes, quando não é dita diretamente, pode magoar ainda mais, porque o ódio escondido corrói silenciosamente, deixa dúvidas e marca de forma invisível.
Este sentimento é como uma faca: não precisa de ser grande para ferir profundamente. Às vezes, é um golpe rápido, direto e óbvio, ou outras vezes, é silencioso, escondido, corta devagar, sem que a vítima perceba de imediato. Pode deixar cicatrizes visíveis, como palavras duras ou gestos agressivos, ou marcas invisíveis, feitas de desconfiança, medo e ressentimento. E, tal como uma faca, mesmo que não seja usada diariamente, como aquelas que só usamos para cortar a carne, o simples facto de estar presente torna tudo mais perigoso, tornando a convivência instável e pesada.
No fim, talvez a maior revolta do ódio seja perceber que ele cresce mais rápido quando ninguém se atreve a olhar para ele de frente. Porque odiar silenciosamente também magoa.