Opinião: Miguel M. Riscado | Conspiração Montenegrina
Por Jornal Fórum
Publicado em 29/01/2026 09:00
Opinião

Na ressaca da primeira volta das Presidenciais, além da óbvia e antecipada segunda volta, ficou a noite eleitoral marcada pelas declarações dos vencidos e, consequentemente, eliminados da próxima ronda. Nenhuma foi particularmente interessante; algumas foram, até, flácidas. O destaque da flacidez foi, no meu entender, para a declaração de alguém que não ficou – diretamente – afastado da eleição. Não ficou afastado, entenda-se, pois não era candidato. A declaração de Luís Montenegro é a que me refiro.

            Um ponto prévio, que só mais tarde foi relevado, e que piora drasticamente a qualidade da já parca intervenção, é a fuga do Primeiro-Ministro, tal qual D. João VI a escapulir-se a Napoleão, pela garagem da sede de campanha do candidato por si apoiado, Luís Marques Mendes. Fugir de um ditador, absolutista, egomaníaco, pode ter alguma justificação; fugir das perguntas dos jornalistas e do candidato por quem deu a cara ainda dois antes, demonstra alguma pequenez; esta, ao contrário da (alegada) de Napoleão e (evidente) de Marques Mendes, que é física, de princípio e sentido de compromisso. Era minimamente exigido ao Primeiro Ministro que: ou não se envolvesse diretamente na campanha de Marques Mendes, ainda que o apoiasse e, assim, não estando vinculado a assumir a derrota na eleição; ou, envolvendo-se, fosse tout court, mantendo-se, nem que fosse na plateia, na derrota do estadista de carreira.

            Montenegro, já se sabia, tem «mau perder». Mas tem ainda «pior ganhar». Renascido na monumental derrota de Rui Rio nas Legislativas de 22, onde Costa ganha a maioria, beneficia da trapalhada entre PS, Ministério Público e motivos pessoalíssimos do socialista, para vencer com o revanchismo da AD por um pequeno pozinho. Se excluíssemos os deputados do PSD-Madeira, teria mesmo perdido por 1 lugar, ainda que tendo ganho na totalidade por, pasmem-se, mil e quinhentos votos. A sua postura foi de um bonacheirismo e à-vontade, na primeira legislatura enquanto Primeiro-Ministro. No entretanto, perde ainda as Europeias, que, já se sabe, não contam para o Totobola. Depois, aproveita-se do grande cisma eleitoral em 25, para erigir um Governo minoritário, num «morde e assopra» constante com PS e Chega. Durante todo este período, a aparência de confiança e, de certo modo, prepotência, do Primeiro Ministro, surfou o caso Spinumviva.

            Na história política de Montenegro, há, contudo, um momento cinzento. A escolha da cor não se baseia numa necessária valoração axiológica, mas sim na incerteza sobre o ocorrido, nos moldes da dissidência e na, putativa e hipotética, relação (pré)existente. Em 2017, ainda o PSD era liderado por Pedro Passos Coelho, foi André Ventura candidato à Câmara Municipal de Loures. É sobejamente lembrada essa candidatura, pelos comentários em relação aos ciganos. Depois, ainda com o futuro líder do Chega nas listas do PSD, na liderança de Rui Rio, surge, internamente o movimento “Chega de Rui Rio”, encabeçado por Ventura e que levaria à dissidência e fundação do Chega em 2019. No ano seguinte, Montenegro tenta a tomada do poder partidário e é derrotado por Rio na segunda volta.

            Penso ser importante, sem qualquer tipo de acusação ou mesmo presunção, esclarecer o que ocorreu politicamente dentro do PSD entre 2018 e 2020. Ventura é lançado para a ribalta por Passos Coelho, que o mantém em Loures, opõe-se a Rui Rio – tal como Luís Montenegro – e entra no teatro político nacional, como ator principal, na liderança do atual Primeiro Ministro. O Chega não é meramente um partido dissidente do PSD. É uma evolução da democracia nacional, para o bem e para o mal. Mas o Chega não se erige do ar, nem, apenas, de uma interpretação da vontade popular. Há uma antecâmara. Era aí que era importante chegar.

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