Opinião: Teresa Inácio Neves | A insustentável leveza do ecrã
Por Jornal Fórum
Publicado em 29/01/2026 09:00
Opinião

Quantos de nós, num assomo de purismo literário, não juraram fidelidade eterna ao cheiro do papel e à textura rugosa das páginas, apenas para, na calada da conveniência, admitir que o digital é, efetivamente, mais rápido?

Desejaram piamente uma livraria em casa, quase que biblioteca. Separada por autores e categorias, com pequenas etiquetas salientes e aquele cheiro que não sabemos ainda explicar, a papel envelhecido ou até novo, não se explica, apenas se venera.

Perdemo-nos nos vídeos de organização que compõem essas estantes infindáveis, agora decoradas com os famosos Book Nooks que ganham fama nas redes sociais, transformando estantes em altares.

Confesso que fui uma dessas céticas militantes. Percorria os armários do IKEA à procura dos melhores, pois só os melhores mobiliários suecos podiam efetivamente fazer parte da minha biblioteca.

 Olhava para um Kobo ou um Kindle com a desconfiança de quem vê uma afronta à “verdadeira” experiência de leitura. Achava que era o futuro a invadir um precioso presente, comparava-os às leituras académicas forçadas nos iluminados ecrãs do computador ou tablet. Mas a verdade, essa senhora teimosa, é que a vertigem dos dias e a necessidade de portabilidade acabaram por vencer o romantismo. E, surpresa das surpresas, descobri que a frieza do ecrã traz consigo uma eficácia quase cirúrgica.

Uma flexibilidade intraduzível.

O formato digital não só contabiliza métricas (para alimentarmos o nosso ego de leitores vorazes), como nos salva na tradução imediata de vocábulos mais obscuros. Mais fascinante ainda: permite-nos sublinhar, destacar e anotar sem aquele calafrio de sacrilégio que sentimos ao riscar uma obra de arte física. É a profanação higienizada; o meu pensamento fica registado, mas o livro permanece imaculado. E aqui, reside o meu novo paradoxo: o ecrã serve o propósito do consumo voraz, mas quando o encanto é genuíno, a obra exige o toque do papel, ascendendo à curadoria da minha estimada biblioteca. Leio em Bytes, mas consagro em celulose.

No entanto, esta facilidade técnica não nos deve toldar a ética. Numa época em que tanto se fala de valorização cultural, é imperativo que a nossa mudança de mentalidade não se fique apenas pelo suporte, mas se estenda à responsabilidade. O “negócio” da pirataria, esta partilha descarada de ficheiros PDF e EPUB em grupos de redes sociais, não é democratização da cultura; é, pura e simplesmente, um desrespeito pelo tempo e trabalho alheio. Contra mim falo, que por vezes admito o jeito que esta ofensa dá, a tentação é grande.

Não obstante, a gratuitidade ilícita impõe um prejuízo real ao escritor, à editora e a toda a cadeia de profissionais que, espante-se, precisam de pagar contas para continuar a criar.

Felizmente, em Portugal, deixámos de ter desculpa para o furto “intelectual”, existem projetos como o BiblioLED, que une as nossas bibliotecas municipais numa rede digital e, tem sido um balão de oxigénio ético. Permite a requisição legal, gratuita e justa de livros digitais.

Ainda assim, o mundo é um livro aberto, cheio de entusiastas escritores e uma variedade que nem sempre encontramos assim.

Não nos iludamos, porém, com romantismos excessivos, a carteira também tem voto na matéria e, nestes tempos, ela costuma gritar mais alto que a nostalgia. Há uma aritmética, fria e implacável, que joga a favor dos bits e bytes: a poupança. Fugindo ao ilegal e vivendo dentro do correto, estamos perante uma diferença de custos assombrosa.

Enquanto um romance acabado de lançar nas livrarias ostenta, muitas vezes, um preço que nos faz ponderar se jantamos ou lemos, a versão digital surge, invariavelmente, com um desconto que roça o indecente. A diferença de preço entre o papel e o ficheiro chega a permitir, numa ginástica orçamental simples, a aquisição de dois livros digitais pelo preço de um físico. Na verdade, há muita coisa que não é feita quando estas versões nos chegam. E a lógica é simples: a digital dispensa a árvore abatida, a impressão, a logística das distribuidoras e a reposição física nas prateleiras. Cortam-se os custos invisíveis, mantém-se a história.

E depois, há o submundo delicioso das promoções relâmpago e das “ofertas do dia”, onde grandes obras clássicas ou contemporâneas aparecem ao preço de um café. É uma tentação constante que democratiza o acesso, sim, mas que também alimenta o nosso vício com uma eficiência assustadora. Sem portes de envio, sem esperas e sem o peso do IVA cultural a doer tanto, o digital torna-se o refúgio económico de quem lê compulsivamente.

Afinal, podemos abraçar a modernidade sem assaltar quem nos escreve os sonhos. Ler digitalmente é prático; ler legalmente é, acima de tudo, decente. No fundo, rendemo-nos à evidência: o cheiro dos livros é impagável, mas a capacidade de ler o dobro gastando metade é um argumento contra o qual nem o leitor mais conservador consegue lutar por muito tempo.

Eu não consegui.

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