Semana passada contei-lhes sobre um sujeito que veio à minha livraria e que passou por uma experiência de quase morte. Uma história muito interessante e que me deixou bastante pensativo. Primeiro, porque é sempre fácil analisar os outros, mas quando o assunto é o nosso íntimo, costumamos desviar o foco. Afinal, são poucas as pessoas que têm a capacidade de fazer uma autoanálise.
Dessa experiência, percebi que durante a vida formamos uma espécie de «linha de tendência». Algo como um padrão, tipo um algorítimo pessoal, baseado em nossas vivências pretéritas. Um padrão que torna-nos seres previsíveis, de fácil leitura, como se houvesse uma determinada ação da gravidade que nos fizesse permanecer sempre na mesma zona de conforto. Foi aí que lembrei do Seu Manel, com sua vida matemática ortodoxa, e perguntei-me: será que isso é saudável.
Bom, a contar pela experiência do Seu Manel, que morreu e voltou, não deve ser muito agradável. Ainda que seja só um exemplo, dá sinais de que ter muita certeza na vida pode ser um problema. Criar modelos, rotinas, procedimentos-padrão, manias e tudo aquilo que o tempo oferece-nos como algo seguro e confortável, pode ser desastroso no final da vida. Da mesma forma, ter uma vida sem regras, sem costumes, no outro extremo, também parece-me inadequado.
Ah, o maldito meio-termo. Como é difícil ser ponderado, cauteloso sem ser medroso, assertivo sem ser apressado ou lerdo. Acho que o nome disso é sabedoria. Uma qualidade que devemos almejar, sem jamais considerar já ter alcançado. É algo que a vaidade não pode acolher, mesmo quando outros nos digam o contrário. A contar pelo exemplo das presidenciais, fica até fácil escolher o presidente. Será que é preciso tanto combate numa sociedade que anda a flertar com a guerra e todo o tipo de conflito?
Mas de volta ao assunto, é preciso pensar que a quebra de rotinas e paradigmas talvez seja um bom instrumento de crescimento pessoal. Terminar um relacionamento conflituoso, buscar apaixonar-se, mesmo quando os ditames sociais dizem-nos que não, ou simplesmente dizer não às coisas pelas quais sempre dissemos sim. Parar, respirar, observar, contemplar. Verbos que parecem não mais fazer parte de nosso dia-a-dia. Por quê? Simplesmente porque nos fixamos às nossas rotinas e com as mesmas práticas obtemos sempre os mesmos resultados: felicidade? Duvido. Ao menos as estatísticas dizem o contário. Nunca antes a humanidade esteve tão doente. Há uma epidemia de doenças mentais.
Que tal pensarmos na experiência de quase morte? E se acontecesse connosco? Hoje à tarde, mas de preferência depois do cafezinho. E se de uma hora para outra fôssemos parar no céu, ou às portas dele. Se lá encontrássemos todos os entes e amigos queridos com quem já partilhamos as melhores experiências…se neste local encontrássemos também os nossos inimigos, agora em paz…E se eles tivessem um olhar calmo, terno e manso, capaz de fazer-nos sentir uma certa vergonha do jeito que vivemos. E que tal se pudéssemos experenciar, por uns instantes, como é a vida no céu. Será que não daria para fazer tudo um pouco diferente por aqui? Estaríamos preparados para lá viver?
As rotinas são boas, eu sei. Estabelecer padrões, também. Mas lembremo-nos! Passamos o ano inteiro à espera das férias. Para quê? Para irmos ao trabalho, mesmo quando não precisamos? Para permanecermos no mesmo lugar? Mesmo quando uma beira de praia, campo ou montanha nos convida a estar próximo da natureza? Já que as férias são apenas uma parte do ano, seria bom se pudéssemos trazer para o nosso dia-a-dia, um pouco da leveza que a quebra da rotina nos traz. Quem sabe assim, ao morrermos, não estranhemos tanto o céu. Bom seria reconhecer, que isso de céu e inferno, começa dentro de nós. Ao contrário do Seu Manel, morrer não é férias, é vida real.