Em tempos de igualdade, que tal se déssemos uma olhadela em nosso calendário? Duvido que alguém com mais de cinquenta anos ainda pense nisso, mas aposto que toda criança ou adolescente já pensou. Por que razões ele é assim, tão complicado? Há meses com mais de trinta dias e outros com menos. O coitado do fevereiro fica ali, tipo um irmão do meio, como quem espera uma Copa do Mundo, que só acontece de quatro em quatro anos.
O leitor que tenha calma. Afinal, isso sempre acontece com quem escreve. Andamos sem inspiração, atordoados com tanta chuva, nessas desaventuranças que insistem em atacar Portugal. Até que vem um tema e… pá! Foi justamente o que me aconteceu. Acordei com uma ideia venturosa, mas bastante segura, registe-se! Vamos reformar o calendário! Se calhar, trata-se de uma demanda histórica, do tempo dos imperadores. Um erro que é anterior à Idade Média.
Numa pesquisa rápida à Internet, li que o calendário atual, gregoriano, foi instituído pelo Papa Gregório XIII, no ano 1582. Veio a substituir o antigo calendário juliano, que acumulava atrasos em relação às estações do ano. Assim, pulou-se do dia 4 de outubro de 1582 direto para o 15 de outubro. Uma treta, de certeza. Desapareceram com dez dias e Portugal foi um dos primeiros países a adotá-lo. Por mais que alguns ainda queiram reviver o passado, não estamos mais dispostos às ordens da antiguidade. Júlio César e Augusto foram os imperadores responsáveis por essa desigualdade em nosso calendário e nem o Papa conseguiu reparar. Os imperialistas são assim. Tiram o que é dos outros para benefício próprio.
Tem até um truque para saber quando um mês tem trinta ou trinta e um dias. Se olharmos as mãos fechadas, com os dedos voltados para baixo, veremos que o primeiro osso da mão esquerda, do dedo mínimo, representa janeiro. O espaço entre ele e o anelar representa fevereiro, e assim por diante. Na troca das mãos, saímos de julho e entramos em agosto, representado no toco do indicador da mão direita. Usamos isso para ensinar as crianças, tamanha é a complicação.
Só pode ter sido ideia de um capitalista insensível a ideia de fevereiro ter apenas vinte e oito dias, enquanto os demais têm até trinta e um. Quanta desigualdade! Descontaram do coitado para agregar aos outros. É uma «geringonça temporal». Os criadores desse calendário não tiveram a hombridade de reconhecer que o último dia do ano deveria ter vinte e oito horas para encerrar corretamente o movimento de translação da Terra. Deixavam essas quatro horitas em carteira, até que de quatro em quatro anos, restituía-se um dia ao mês «queixinhas». Assim lhe davam – e ainda dão - um pouco de dignidade, sem jamais reparar a injustiça feita ao longo dos séculos.
Eu quase esquecia de contar a ideia que tive, que é bem mais simples do que esse calendário secular que obedecemos com vassalagem. Basta que todos os meses tenham 30 dias e pronto. É o primeiro passo. Questão de igualdade! Facilitaria a vida dos operadores dos Recursos Humanos, que não precisariam quebrar as férias (nem o salário) de ninguém. Assim sendo, os meses que têm trinta e um dias (ao total são sete) passariam a ter trinta. Janeiro e março doam um dia cada para fevereiro e já resolve o problema dele, de largada. Maio, julho, agosto, outubro e dezembro perdem um dia cada e passam a ter trinta. Fica quase tudo resolvido e com igualdade.
Se o leitor chegou até aqui é porque está interessante. Vamos lá! Como janeiro e março estão quites com fevereiro, os outros cinco dias retirados dos demais farão com que o Natal ande quatro casas para trás. Quatro porque o 31 de dezembro é depois do Natal. Para não mudar o dia no espaço, mudamos só no calendário. Então, o Natal passaria a ser dia 29, para desforra da minha esposa. Ela sempre reclamou do seu natalício quando a burlavam e diziam: “é prenda de Natal e aniversário, viu!” Desta forma, o ano novo não mais seria no dia 31 de dezembro e o Natal não precisaria mais ser comemorado desde a véspera. Bastava que fosse dia 29 e já no 30 de dezembro emendaríamos com o ano novo.
Desse histórico acerto de contas, sobrariam cinco dias. Dias que fariam total diferença na vida da humanidade. Em vez de termos a «Confraternização Universal», passaríamos a ter as «Férias Universais», tempo de sobra para curar a ressaca do Réveillon. E mais! O quinto dia desse novo mês teria 28 horas e 48 minutos, para compensar com exatidão a bissextilidade que recai sobre o coitado do fevereiro, igualzinho como se faz quando termina o horário de verão. Primeiro de janeiro passaria a ser «Dia de Reis», numa justa homenagem aos tempos imperiais.
Agora vem a grande questão. Precisaríamos de um nome para este diminuto mês de cinco dias, que ao invés de ser o último do ano, passaria a ser o primeiro. Em honra à sabedoria popular, em que os últimos serão os primeiros. Um pequeno mês, onde cada um poderia fazer o que quisesse. Já pensou? Para atender aos direitos autorais, o primeiríssimo mês poderia chamar-se “Marcos”. Pequeno como a minha vaidade. Que tal? Primeiro de Marcos! Não seria lindo? E para reparar quem sofreu por ter nascido em 29 de fevereiro, teremos o 5 de Marcos, o maior dia do ano.