Opinião: Miguel M. Riscado | Não nos ensinam isto na escola
Por Jornal Fórum
Publicado em 12/02/2026 09:00
Opinião

Na sequência da nova leva de ficheiros divulgados pelo Departamento de Justiça Norte-Americano relativos ao caso Jeffrey Epstein — organizador de eventos de uma rede global de pedofilia —, Peter Mandelson, político britânico, foi apanhado de cuecas, junto a uma mulher não identificada, numa das fotografias do processo. Demitiu-se de seguida de todos os cargos que ocupava e abandonou o Partido Trabalhista.

Depois de quase quatro milhões de ficheiros divulgados sobre este drama, continuamos a conhecer apenas a ponta do iceberg. Políticos, magnatas, milionários, todos frequentavam a ilha caribenha onde ocorreram os abusos de crianças e adolescentes, vítimas sem fim. As vítimas eram objetificadas, como carne para o papão comer, como se pertencessem a uma classe menor, que servia pura e simplesmente para satisfazer os prazeres obscenos dos mestres. Esta postura perante o outro é mais complexa do que aparenta. Muitos das menores levadas para a ilha partiam com o pretexto de poder ser o começo da sua carreira no mundo da moda e do jet set. Depois, eram usadas e largadas, como coisas. Há um indício presente aqui, na própria construção moral erigida pela sociedade à sua volta e, nalguns casos presentes nos ficheiros, pelos seus próprios progenitores: a busca incansável pela fama, pelo dinheiro e pelo reconhecimento. É uma construção que não é necessariamente capitalista — nos sistemas comunistas também há a ambição de ascensão no partido e no sistema; é uma ambição tipicamente humana. Mas é, na verdade, uma ambição não naturalmente humana. É um desvio à naturalidade do ser, individual e social. Os animais maléficos que se aproveitam dessa construção são, na maior parte das vezes, eles mesmo que a criaram: magnatas, donos de empresas altamente cotadas, políticos. Implementam uma obsessão pelo trabalho, pelo ordenado, pelo passar a perna ao colega de escritório — uma rede de fantoches criada e ordenada pelos próprios. No fundo há uma maquinização do humano. Quem cai nessa rede começa a achar que pertence a essa elite (do mal) e normaliza os seus comportamentos obscenos.

O nosso cérebro possui um sistema de recompensa. Quem idolatra o trabalho, o dinheiro sem fim e infinidade de bens materiais, necessita, na sua ótica, de uma recompensa maior. Ou seja, além de fatores externos, existem fatores internos que estão por trás destes comportamentos anormais. Tivemos recentemente um caso de um abusador sexual de menores em Portugal que era assistente universitário e advogado de sucesso. A recompensa deste pedófilo eram crianças inocentes que ficarão marcadas para vida com o trauma do seu abuso; algumas ainda nem idade têm para compreender o que lhes aconteceu. O completo desrespeito e desprezo pela vida do outro; o outro serve, nesta lógica distorcida, como meio de prazer imediato e momentâneo.

Na escola pública, principalmente em regiões periféricas, é nos colocada diariamente uma pequena semente de esperança: podemos, se trabalharmos, se estudarmos e se quisermos muito, ser pessoas de sucesso, que contribuem para melhorar a sociedade. O que não nos ensinam na escola é que estamos em risco de entrarmos num sistema de roldanas controlo por interesses obscuros. O horário fixo, a modelagem da nossa vida em virtude deste, o trabalho duro como equivalência ao sucesso, são características do sistema de recompensa desligado dos valores humanos: a solidariedade, a responsabilidade, o respeito mútuo. Estes não podem ser iniciativas instagramáveis. São elas o tronco da nossa existência.

A ilusão de que podemos conquistar o mundo é abalada pelo lixo que o controla. Durante décadas este lixo era queimado em lareiras privadas e escondido. Agora verte e jorra por todos os lados. O dinheiro, a luxúria, o orgulho, minam a esperança. O Sol tenta brilhar, mas a névoa é espessa.

A ilusão, como digo, é abalada, mas não pode ser exterminada, nem cessar.

Gostou deste conteúdo?
Ver parcial
Sim
Não
Voltar

Comentários
Comentário enviado com sucesso!

Chat Online