Opinião: Teresa Inácio Neves | Do Brioche às telhas do povo
Por Jornal Fórum
Publicado em 12/02/2026 09:00
Opinião

Dizem que a história não se repete, mas que rima.

Eu diria antes que ela gagueja e tropeça nas mesmas pedras de mármore polido.

A personagem original era clara, embora a sua biografia tenha mais laca do que substância. Era bela, rica e pertencia a uma estratosfera social que a plebe só vislumbrava através das grades dos portões dourados. Vivia numa época em que a higiene era um conceito abstrato, mas ela estava sempre impecável, polvilhada de pó de arroz e arrogância.

Chamava-se Maria Antonieta. Reinava no século XVIII (e não no XIV, perdoem-me o preciosismo, mas a história merece rigor), numa França pré-guilhotina.

Na miséria do povo, na pobreza e na fome, Antonieta vivia à grande à francesa, como diz o ditado.

Ficou famosa pela frase que provavelmente nunca disse, mas que lhe assenta como uma luva de seda: "Se não têm pão, que comam brioche". Uma frase que ressoa a desconexão absoluta, a um desdém perfumado pela miséria alheia.

Avancemos trezentos anos.

França é agora Portugal, e o perfume francês foi substituído pelo cheiro a terra molhada das tempestades que assolam o país. E eis que surge a reencarnação do espírito de Antonieta. Desta vez, não usa peruca alta nem vestidos de crinolina. Usa fato e gravata.

Numa altura em que o país se desfaz em pequenas peças de dominó, “sugere”, com muitas aspas, que se use o salário do mês anterior!

Uma alma de Versalhes!

Perante casas destelhadas pela fúria do vento (chamemos-lhe Kirk, Leslie, ou apenas "o azar de quem vive no caminho do clima”), solos inundados, carros e bens materiais danificados. Não fossem as mulheres mais efusivas que os homens, já sabemos como foi a Kristin. 

Foquemos.

Algures em direto na televisão nacional e, na sua infinita sabedoria financeira, decidiu fazer uma auditoria moral às carteiras dos desgraçados.

É de uma sensibilidade que comove as pedras da calçada.

No meio da pouca sorte, e para quem de momento não tem eletricidade, poupou os ouvidos a barbárie.

O povo, esse ingrato, gasta o ordenado de forma leviana.

Fará isto sentido?

Ora, em pagar uma renda inflacionada.

Encher o frigorífico, pagar eletricidade e água.

Ter uma despesa de internet, guardar uns poucos de trocados que mal chegam para o café, despesas com filhos, escola e creches.

Em consultas e quiçá… nos veterinários e oficinas.

O salário do mês passado não foi poupado para telhas porque foi gasto a sobreviver ao mês passado!

Mas há sempre espaço para o brioche, telhas e lonas de plástico.

É, tremendamente inconcebível esta realidade.

Realmente, sobra imenso para o fundo de emergência de catástrofes naturais!

A questão não está nas intempéries, que não as podemos infelizmente controlar, por agora.

Mas está na falta de humanidade numa pequena frase que chocou o país.

Ridículo.

O dominó cai, as cidades tremem, os telhados voam como folhas de outono, mas o que choca não é a precariedade da habitação ou a falta de apoios céleres.

O que choca é a ousadia.

“Se não têm pão, que comam brioche!”, num português moderno.

É, de facto, inconcebível.

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