Dizem que a história não se repete, mas que rima.
Eu diria antes que ela gagueja e tropeça nas mesmas pedras de mármore polido.
A personagem original era clara, embora a sua biografia tenha mais laca do que substância. Era bela, rica e pertencia a uma estratosfera social que a plebe só vislumbrava através das grades dos portões dourados. Vivia numa época em que a higiene era um conceito abstrato, mas ela estava sempre impecável, polvilhada de pó de arroz e arrogância.
Chamava-se Maria Antonieta. Reinava no século XVIII (e não no XIV, perdoem-me o preciosismo, mas a história merece rigor), numa França pré-guilhotina.
Na miséria do povo, na pobreza e na fome, Antonieta vivia à grande à francesa, como diz o ditado.
Ficou famosa pela frase que provavelmente nunca disse, mas que lhe assenta como uma luva de seda: "Se não têm pão, que comam brioche". Uma frase que ressoa a desconexão absoluta, a um desdém perfumado pela miséria alheia.
Avancemos trezentos anos.
França é agora Portugal, e o perfume francês foi substituído pelo cheiro a terra molhada das tempestades que assolam o país. E eis que surge a reencarnação do espírito de Antonieta. Desta vez, não usa peruca alta nem vestidos de crinolina. Usa fato e gravata.
Numa altura em que o país se desfaz em pequenas peças de dominó, “sugere”, com muitas aspas, que se use o salário do mês anterior!
Uma alma de Versalhes!
Perante casas destelhadas pela fúria do vento (chamemos-lhe Kirk, Leslie, ou apenas "o azar de quem vive no caminho do clima”), solos inundados, carros e bens materiais danificados. Não fossem as mulheres mais efusivas que os homens, já sabemos como foi a Kristin.
Foquemos.
Algures em direto na televisão nacional e, na sua infinita sabedoria financeira, decidiu fazer uma auditoria moral às carteiras dos desgraçados.
É de uma sensibilidade que comove as pedras da calçada.
No meio da pouca sorte, e para quem de momento não tem eletricidade, poupou os ouvidos a barbárie.
O povo, esse ingrato, gasta o ordenado de forma leviana.
Fará isto sentido?
Ora, em pagar uma renda inflacionada.
Encher o frigorífico, pagar eletricidade e água.
Ter uma despesa de internet, guardar uns poucos de trocados que mal chegam para o café, despesas com filhos, escola e creches.
Em consultas e quiçá… nos veterinários e oficinas.
O salário do mês passado não foi poupado para telhas porque foi gasto a sobreviver ao mês passado!
Mas há sempre espaço para o brioche, telhas e lonas de plástico.
É, tremendamente inconcebível esta realidade.
Realmente, sobra imenso para o fundo de emergência de catástrofes naturais!
A questão não está nas intempéries, que não as podemos infelizmente controlar, por agora.
Mas está na falta de humanidade numa pequena frase que chocou o país.
Ridículo.
O dominó cai, as cidades tremem, os telhados voam como folhas de outono, mas o que choca não é a precariedade da habitação ou a falta de apoios céleres.
O que choca é a ousadia.
“Se não têm pão, que comam brioche!”, num português moderno.
É, de facto, inconcebível.