Opinião: João de Jesus Nunes | O último combate do navio-patrulha
Por Jornal Fórum
Publicado em 12/03/2026 09:00
Opinião

Enquanto aguardo a apresentação do meu último livro – “100 anos do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes – 1926 – 2026”, prevista para o próximo mês de maio, embora com a obra já encerrada, continuo na minha pesquisa sobre mais acontecimentos deste período bélico.

Assim, numa consulta à obra de Luís Almeida Martins – “Histórias da História de Portugal” – deparei-me com o relato do último combate do navio-patrulha Augusto de Castilho.

Menos de um mês antes do armistício que pôs fim à Primeira Guerra Mundial, o conflito ainda fez correr sangue luso, numa ação que permanece no imaginário nacional.

O navio-patrulha de alto mar Augusto de Castilho partira de Lisboa na tarde de 8 de outubro de 1918, sob o comando do primeiro-tenente Carvalho Araújo. A sua missão consistia em escoltar até à Madeira o vapor Beira. Faltava menos de um mês para terminar a guerra, mas os submarinos alemães continuavam a representar uma forte ameaça no Oceano Atlântico.

Chegados ao Funchal no dia 11, sem incidentes, os dois navios, o patrulha manteve-se ao largo em quarentena, devido à pneumónica que grassava em Lisboa. Entretanto, foi incumbido de escoltar até Ponta Delgada o vapor São Miguel, da Companhia Insulana de Navegação, com cerca de duas centenas de passageiros a bordo. Partiu logo dois dias depois da chegada, a 13.

Pouco depois das 6 horas da madrugada de 14 de outubro emergiu das águas o submarino alemão U – 139, comandado por Lothar von Arnault de la Perière – nada mais, nada menos do que o maior “às” dos submarinos de toda a História, com um impressionante palmarés de 194 navios e 453 716 toneladas de arqueação bruta afundados nas duas guerras mundiais.

La Perière abriu fogo sob o São Miguel, ao que Carvalho Araújo respondeu mandando lançar caixas de fumo na sua direção, criando assim uma barreira visual. Quando já não havia mais caixas de fumo, para proteger o São Miguel e os seus passageiros só restava ao Augusto de Castilho avançar resolutamente de encontro ao U – 139, expondo-se ao fogo do canhão da torreta e dando tempo ao vapor de passageiros para se afastar.

O combate, desesperado, arrastou-se por duas horas, fazendo vítimas do lado português. Ao fim desse tempo, o Augusto de Castilho, já sem munições, com as máquinas atingidas e a TSF danificada, estava irremediavelmente condenado. Quando apresentava a rendição, um último tiro dos alemães atingiu em cheio o primeiro-tenente Carvalho Araújo, que teve morte imediata.

Os 48 portugueses sobreviventes obtiveram autorização de La Perière para lançar ao mar um salva-vidas e um bote, onde se comprimiram. O submarino meteu então no fundo o Augusto de Castilho, levando consigo os corpos de Carvalho Araújo, envolto na bandeira verde-rubra, e dos restantes mortos em combate.

O salva-vidas alcançou, no dia 16, a ilha açoriana de Santa Maria, e o bote chegou, no dia 20, à ilha de São Miguel, no concelho do Nordeste.

Não foi este o único combate do Augusto de Castilho. A 23 de março de 1918 pusera em fuga um submarino alemão quando escoltava o vapor Luanda entre Lisboa e o Funchal. E, a  21 de agosto do mesmo ano, abrira fogo com sucesso, sobre outro U – Boot, ao largo do Cabo Raso, em Cascais.

No início de 1917, a Alemanha declarou guerra submarina ilimitada no Atlântico, incluindo ataques a navios neutrais, como os do Brasil, tendo sido essa a causa direta da declaração de guerra por parte dos Estados Undos da América. Ao longo do conflito, cerca de metade da frota mercante britânica foi afundada pelo U – Boote.

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