Opinião: Martim Leal | Barulho de Fundo
Por Jornal Fórum
Publicado em 12/03/2026 09:00
Opinião

Noutro dia dei por mim a ver televisão, mas sem a estar realmente a assistir. Se me perguntarem em que canal estava ou o que estava a ser transmitido, não faço ideia. E percebi que não era distração, mas hábito. A verdade é que aquele gesto não aconteceu apenas naquele dia, já era rotina. Não queria ver nada. Não me interessava a série, o filme ou o noticiário que estivesse a dar naquele instante. A única coisa que eu não queria era silêncio.

A televisão não estava ali para me entreter, mas para me acompanhar. Aquilo que procurava não era conteúdo: era barulho. E então percebi que isto não era só meu. É de muita gente. Habituámo-nos tanto ao ruído que já não sabemos viver sem ele. Precisamos da televisão ligada, da música de fundo, do telemóvel a vibrar, de qualquer coisa que nos faça companhia sem nos exigir presença.

Chamamos-lhe distração, mas talvez seja outra coisa. Talvez seja vício. Talvez o silêncio nos incomode porque não tem filtros nem distrações. Não tem intervalos, nem notificações, nem mudança de canal. No silêncio não há por onde fugir, há apenas espaço. Espaço para pensamentos que adiamos, para perguntas que evitamos, para versões nossas que não cabem no barulho do quotidiano.

O silêncio exige uma coisa: pensar. E, por vezes, pensar naquilo que não queremos. Já dizia Maria Guinot: “Às vezes é no meio do silêncio que descubro afinal aquilo que sou, sou um grito ou sou uma pedra, de um lugar onde não estou”.  Seremos nós um grito? Uma pedra? Talvez o silêncio não nos dê respostas, apenas nos devolve àquilo que sempre fomos, sem camadas, sem distrações. É desconfortável encarar essa versão crua de nós mesmos, e é por isso que procuramos o barulho, mesmo que vazio, mesmo que inútil.

O barulho tornou-se uma muleta. Um escudo contra nós próprios. Um hábito tão natural que mal reparamos que ele existe. E desta forma até nos esquecemos da importância que o silêncio pode ter. Há muita gente que vive no silêncio, mas também há muita gente que vive rodeada de tanto barulho que precisa desse silêncio para respirar. Porque o silêncio nem sempre nos cala.  Às vezes, ele desperta. Desperta pensamentos, memórias e emoções que tentamos ignorar. Desperta a parte de nós que estava adormecida no meio do ruído, que se escondeu atrás de televisões, telemóveis e músicas de fundo. E é nesse despertar que descobrimos quem somos, ou pelo menos que existe algo dentro de nós que merece ser ouvido. O silêncio, no fundo, não é vazio. É presença. É confronto. É uma companhia que nos obriga a estar inteiros, sem distrações.

Por tudo isto, quando ligarem a televisão, ou colocarem uma música de fundo apenas para preencher o vazio, lembrem-se que nem todo o vazio se preenche com ruído. Às vezes, pode ser preenchido no silêncio.

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