Opinião: Marcos Leite | Sobre adoecer o espírito
Por Jornal Fórum
Publicado em 12/03/2026 09:00
Opinião

Viver é uma dádiva, especialmente quando se goza de boa saúde. Mas o que dizer de alguém que nasce doente? Como definir os casos em que uma inocente criança vem ao mundo com grandes desafios para manter-se viva? E por que razões o cancro não poupa as crianças? Estas são perguntas que a ciência pura não consegue responder. Eis porque muitos atribuem a Deus estes desígnios, como se os infortúnios fizessem parte de um plano maligno do Alto para que as pessoas sofressem sem sequer saber os motivos.

Por certo que este é um debate difícil, intrincado e tem nas religiões outro ponto de enorme divergência. E quando a ciência e a religião não conseguem chegar a um consenso, os que padecem desses males encontram desafios ainda maiores. Em quem buscar sentido para as suas dores? Os pessimistas ficam presos ao «por quê». Os otimistas enxergam nas dificuldades a oportunidade para investigar o «para quê».

A doutrina defendida pelos espíritas, cristãos que seguem as orientações de Allan Kardec, defende que estes vazios de explicação residem no fenómeno da reencarnação. Os estudiosos desta corrente consideram estes fenómenos como resgate das questões de causa e efeito, fruto de vivências passadas. Outras religiões, de matriz chinesa ou indiana, referem ainda a figura do karma. Para estes, a predisposição para a manifestação destas doenças tem origem no espírito daquele que reencarna. Em outras palavras, é como se o espírito reencarnante aceitasse as provas e desafios previamente, antes de renascer na vida da Terra. Vale dizer que o mesmo princípio rege as manifestações das doenças que surgem de maneira inesperada e que são independentes do comportamento dos pacientes.

No entanto, surgem novas formas de adoecimento. Se para os casos mais estranhos a origem está no espírito, na vida vivida da atual pós-modernidade percebem-se, cada vez mais, casos de adoecimento advindos da repetida ação comportamental. São as chamadas doenças da alma, cuja manifestação pouco se dão no corpo. São casos como a depressão, o burnout, a ansiedade, entre outras «doenças da alma». Prova disso é que a Organização Mundial da Saúde reconhece como doença ou distúrbio de saúde (desde 1992) os Estados de Transe e de Possessão (CID 10 – F 44.3), como transtornos dissociativos caracterizados pela perda temporária da identidade e autoconsciência, quando o indivíduo age como se fosse tomado por outra personalidade, espírito ou força.

Para os espíritas, que além da ciência acreditam haver influência espiritual nos casos de depressão e outros transtornos dissociativos, a causa desses fenómenos de natureza comportamental tem como fonte o descontrolo dos pensamentos. Curiosamente, assim como a depressão é considerada como «a doença do século», vivemos o século da conectividade e das comunicações. Ainda que esta seja uma inferência quotidiana, que associa a depressão ao uso indiscriminado de redes sociais e distrações provenientes do uso prolongado do telemóvel, quanto a mim, não restam dúvidas de que esta expansão universal das comunicações pode ser a causa do aumento indiscriminado dos casos de depressão. Com efeito, os reencarnados em espírito saudável conseguem adoecê-los, prova de que a lei de causa e efeito, defendida pelos espíritas, é resposta para o indiscriminado aumento da depressão e do consumo de redes sociais.

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