Opinião: Carlos Madaleno | O rei que há 840 anos outorgou foral à Covilhã
Por Jornal Fórum
Publicado em 23/07/2026 09:00
Opinião

Perfazem-se, em setembro deste ano, os 840 anos da atribuição do primeiro foral à Covilhã.  A Covilhã tornava-se então o centro de um vasto termo que se estendia desde Famalicão da Serra até ao Porto de Ródão, no Tejo. A intenção do monarca era clara, a de atrair povoadores para o meio hostil. A pacificação da região estava ainda longe de ser alcançada. A Sul, eram constantes as investidas muçulmanas e a Este mantinham-se os conflitos com o reino de Leão e Castela. O foral não fundava nem restaurava a vila, mas instituía o concelho. A Covilhã era já vila em si, antes do foral, como se constata através da doação das igrejas ao Bispo de Coimbra, em maio de 1186, “eclessi omnibus que sunt et que erunt edificate in villa de coveliana”.  O foral de 1186 teve, pois, o mérito de ser um marco não do povoamento e restauro da vila, mas simplesmente da sua armadura administrativa, enquanto cabeça de um vasto e enorme alfoz que até aquela época era terra de ninguém. 

Mas porque do foral e da sua importância tenho já falado noutras ocasiões, aproveito as parcas linhas que restam para abordar alguns aspetos daquele que o atribuiu. Nasceu, em Coimbra, a 11 de novembro de 1154.  Por coincidir a data com o dia de São Martinho de Tours, havia de receber o nome de Martinho Afonso. Aliás, sendo segundo filho, restava-lhe usufruir de uma afortunada carreira eclesiástica e o nome a isso se prestava. Quis, porém, o destino que lhe morresse o irmão mais velho, chamado Henrique como o avô, e Martinho seria rebatizado de Sancho que esse sim era nome digno de rei. 

Em 15 de agosto de 1170, Sancho foi armado cavaleiro por seu pai, D. Afonso Henriques, após o acidente de Badajoz. Neste trágico episódio, ocorrido em abril de 1169, D. Afonso Henriques partiu a perna (o fémur direito), embatendo violentamente contra o ferrolho de uma das portas da cidade. O incidente encerrou a sua carreira militar e ditou a sua captura pelo rei Fernando II de Leão. É nessa altura instaurado um conselho de regência para governar em nome do rei incapacitado. A administração do reino ficou a cargo dos filhos do rei, Sancho e a sua irmã Teresa.  

Conturbados eram estes primeiros tempos da regência de D. Sancho. Eram muitos os inimigos da coroa, a começar pelo Reino de Leão que havia controlado Portugal até  1143. A Igreja demorava em consagrar a independência de Portugal com a sua bênção o que só aconteceria em 1179. Para compensar estas falhas, D. Sancho procurou aliados dentro da Península Ibérica, em particular o reino de Aragão, inimigo tradicional de Castela, que se tornou no primeiro reino a reconhecer Portugal. O acordo foi firmado, em 1174, pelo seu casamento, ainda como príncipe herdeiro, com a infanta Dulce, irmã mais nova do rei Afonso II de Aragão. 

D. Sancho I, aclamado rei em 1185, ficou célebre por focar a sua governação no povoamento e na fixação de terras, em vez de apenas nas guerras de conquista, ganhando o epíteto de "O Povoador".  Incentivou os estrangeiros, (imigrantes diríamos nós, hoje) a estabeleceram -se em território português. Em Montalvo deu terras aos flamengos, e em Sesimbra aos clonos francos. Outorgou muitos forais, na nossa região contam-se o de Gouveia e os primeiros que haveriam de sair do da Covilhã, Valhelhas, São Vicente da Beira e Belmonte.  

 A Sul dedicou-se a guerrear os mouros. Aproveitou a passagem pelo porto de Lisboa dos cruzados da terceira cruzada, na primavera de 1189, para conquistar Silves, um importante centro administrativo e económico. Haveria, pois, de se intitular o primeiro rei dos Algarves. 

A memória de um fenómeno astronómico, ocorrido no seu reinado, perdurou durante séculos. Foi a 3 de junho de 1199, quando entre a hora sexta e a nona (das 12h às 15h), o sol ficou negro como pez e surgiram no firmamento a lua e as estrelas. Amedrontadas as pobres gentes refugiaram-se nas igrejas e mosteiros implorando perdão pelos pecados e doando terras para salvação das almas. Logo anunciaram os adivinhos que era castigo, mau presságio que se avizinhavam anos de miséria e agonia. Dizem os cronistas que se seguiram chuvas interruptas, secas extremas, chuvas de granizo em 1206 e 1207 e em 1208 tempestades marítimas como nunca se viram. A Covilhã que recebera foral há apenas 13 anos também teve os seus azares. Logo em novembro desse ano, viu adiado por 7 séculos o sonho de ser cidade pois o rei povoador dava foral à Guarda projetando para aí a transferência da Sé da Egitânia, condição fundamental para ser algo mais do que vila. Maldita Ribeirinha que arrebatou de amores o rei Povoador, terão pensado os covilhanenses. E como se não bastasse, deste amor proibido nasceria ainda Gil Sanches para o qual o concelho da Covilhã teve de ceder uma herdade correspondente hoje à localidade de Sarzedas.  

Outros traços deste rei ficarão para outra oportunidade, antes, porém, não o esqueçamos como homem de coragem que não temeu as ameaças do Papa que chegou a excomungá-lo entre 1209 e 1211. O monarca tentou esquivar-se ao pagamento do censo anual de dois marcos de ouro à Santa Sé, um tributo de vassalagem que o seu pai, D. Afonso Henriques, tinha prometido pagar ao Papa e nunca cumprira. Deveremos ainda lembrá-lo pelo gosto pelas artes e literatura, tendo escrito vários volumes com poemas. 

Para terminar, o desejo que esta efeméride nos incentive a procurar na História aquela que é a nossa essência e a nossa identidade. 

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