Opinião: Miguel M. Riscasdo | A extinção dos yuppies
Por Jornal Fórum
Publicado em 30/07/2026 09:00
Opinião

A sociedade neocapitalista é baseada numa escada. A ideia do self-made man é precisamente a imagem do homem que, nascido do nada, despido de título nobiliárquicos e de bens familiares, chega ao patamar mais alto possível da escada. Essa ideia é uma mera miragem, como observamos na realidade. É inegável que a formação, educação, círculos de amigos e tradições são o maior trampolim social que existe. Trampolim esse que mais se assemelha a um carrossel. O carrossel é a vida destas famílias. Quando os avôs saem, entram os netos e assim segue de geração em geração.  

Contudo, a globalização do acesso ao ensino superior, permitiu a jovens de famílias de carência económica ou, pelo menos, da classe média-baixa, acederem a cargos de rendimento e carga de trabalho elevados. Esses jovens, por terem assistido desde cedo a uma realidade e a uma miragem diferentes, acreditam que a santificação do trabalho equivale ao sucesso eterno. Surgiram então os yuppies, com dois telefones na mão, enquanto redigem um e-mail e vão a andar para uma reunião, numa roleta sem fim…pelo menos até ascenderem ao cargo de sócio. E, mesmo aí, não conseguem parar, pairando sobre os escritórios como fantasmas aterrorizando os estagiários.  

E assim continuava a praxis que se ganhava na escola: a ideia de vida em progressão, as várias etapas, os vários anos da escola, os vários anos da faculdade, os vários cargos do escritório. Fundamentalmente, uma hierarquia não intuitiva para justificar ao que podemos aceder enquanto seres humanos. Os yuppies eram endoutrinados como os bebés no jardim de infância, as crianças na escola, os jovens no secundário e os universitários na faculdade. Parecia não haver alternativa.  

Ainda que com muitos antecedentes, a pandemia de Covid-19 e o consequente confinamento parecem ter acendido algumas sinapses nalguns jovens recém-licenciados e noutros, mais velhos, que viviam na roleta do escritório. Começaram a surgir modelos mais sustentáveis de vida, longe das grandes cidades, aparentemente mais atenuantes das consequências mentais e físicas dos esforços diários da vida citadina, nomeadamente, mas não só, das artrites e artroses das escadas do metro e dos odores dos autocarros. Assistimos a um ligeiro êxodo urbano, a novas migrações, a novas ideias.  

Mas será que isso vale a pena? Será que os yuppies estão extintos? A resposta é evidente, mas não empiricamente comprovável: claro que não. O mundo não mudou absolutamente nada. Nem nos últimos 5 anos, nem nos último 5 milénios. Ou melhor, o mundo mudou…a natureza humana é que não. 

Vivemos de modas inventadas e com predominância, apenas, na nossa cabeça. A mudança do comportamento de alguns, caracterizada como uma libertação, mais não é que uma ligeira ideia diferente, que se marca como “revolucionária” ou “não formatada”. A tentativa de não formatação é, na maioria das vezes, uma reação à formatação e não uma verdadeira alternativa erigida de princípios distintos.  

Os yuppies nunca se extinguem, como quem procura alternativa também não se extingue. Todos continuam no mesmo mundo, mas com visões diferentes. Ambos seguem achando que jogam o jogo da vida da maneira mais estratégica. E ambos continuam, sabendo ou não, na roleta, à espera da viagem de saída.  

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