Em 1959, o Papa João XXIII, que acabara de ser escolhido como sucessor de Pio XII e dos seus 19 anos de pontificado, anunciou, inesperadamente, a intenção de convocar um Concílio Ecuménico. Formalizado em 1961, teve início a 11 de outubro de 1962 o Segundo Concílio do Vaticano (Vaticano II), tendo reunido cerca de dois mil e quinhentos bispos de todo o mundo em quatro sessões anuais. Com o falecimento de João XXIII em 1963, é o seu sucessor Paulo VI a finalizar o Concílio.
É impossível resumir cabalmente todos os aspetos do vigésimo primeiro concílio ecuménico da Igreja Católica. Focar-nos-emos apenas num deles e de modo resumido: o papel dos leigos na Igreja e no mundo. Fazemo-lo por uma questão simples: pela democratização de todos os aspetos, pessoais ou profissionais, políticos ou sociais, da sociedade contemporânea.
No que concerne aos leigos, o Vaticano II apelou a uma visão que ultrapassava o mero auxílio destes à Igreja, reconhecendo-os como plenos missionários na busca pela santidade diária. Em Lumen Gentium é diretamente reconhecida aos leigos a mesma dignidade dos sacerdotes, no plano sacerdotal e profético, com a diferença substancial da secularidade inerente à vida laica. Em Gaudium et Spes os leigos são a ponte entre a Igreja milenar, que não muda e que se assenta em dogmas, e o mundo contemporâneo, com os seus desafios tendencialmente novos e a descobrir. Materialmente, como descrito em Apostolicam Actuositatem, os leigos são incentivados a dinamizar, participar e guiar as suas paróquias, mormente como participantes, não só na Liturgia da Palavra, mas também na Liturgia Eucarística como ministros extraordinários da comunhão (ainda que posteriormente ao Concílio), tal como viria a ser definido em Immensae Caritatis, instrução de Paulo VI de 1973.
O que significou tudo isto para a posterioridade? A reforma do Vaticano II e o espírito reformista e santificante de Paulo VI transformaram a Igreja. Em menos de cem anos, a mensagem católica foi amplamente traduzida, difundida, explicada e apresentada com uma clareza sem precedentes. A responsabilidade acrescida aos leigos, como na Igreja primitiva — que foi, é e sempre será o guia de partida e de chegada da Igreja Católica — veio com transmissão de conhecimento, aprofundamento de oração e, claro, obras. Mas que obras são estas? Não são obras materiais; são, sim, obras espirituais. É fácil para o olho humano identificar uma construção de pedra, um acumular de dinheiro ou uma festa sonante. Mas a obra a que os leigos são chamados vai além da institucionalizada. Reporta-se à vida diária, ao quotidiano, às nossas relações interpessoais e aos acasos do dia a dia. Os leigos não são apenas, apesar da importância, chamados a ser leitores, salmistas, catequistas, membros de coros ou organistas — são chamados à santidade plena pelas suas obras diárias e pelo cumprimento dos mandamentos que resumem a Lei e os Profetas: amar a Deus e amar ao próximo como a si mesmo.
A reforma de Paulo VI, na nossa escala micro, tem agora a face de Unidades Pastorais. Verdadeiramente, o concelho da Covilhã tem muito a ganhar com estas novas organizações que serão, como bem lembra o Bispo José Miguel Pereira, dinamizadas e construídas pelos leigos, pelo “povo de Deus”. A renovação constante, a inexistência de tradições banais e de perpetuidades e a intergeracionalidade são os guias de atuação para uma Igreja viva, sem pequenos grupos e sem “capelinhas”. Não pode haver falsos proprietários das Igrejas — são estes que minam o espírito santificante com os seus interesses pessoais e com o “Deus das suas cabeças”. Deus é o mesmo para todo o povo e é esse povo que constrói a sua Igreja, apontando, sempre, com as limitações terrenas, à Igreja celeste.