Opinião: Sónia de Sá | Ouvir antes de decidir
Por Jornal Fórum
Publicado em 29/10/2026 09:00
Opinião

Quem percorre as Beiras habitua-se a reconhecer a Europa nas placas azuis de doze estrelas que anunciam estradas, pavilhões, centros de saúde e incubadoras, e aprende também que essa Europa tão visível raramente se senta à mesa com quem aqui vive para perguntar o que faz falta. Os fundos de coesão mudaram a paisagem física do interior, e os estudos que avaliaram décadas de investimento europeu em Portugal reconhecem esse efeito nas infraestruturas, embora apontem a falta de planeamento e de visão estratégica como o seu limite mais persistente.

Os números contam a outra parte da história. Os Censos de 2021 mostraram que mais de oito em cada dez municípios portugueses perderam população numa década e que os 208 concelhos menos povoados, que ocupam quase dois terços do território, reúnem apenas um quinto dos habitantes do país. A própria Comissão Europeia admite, no seu último relatório sobre a coesão, que há regiões presas numa armadilha de desenvolvimento, e escreve que nenhum lugar deve ser ou sentir-se esquecido.

E é neste ‘sentir’ em que me quero deter. Na consulta pública que preparou a visão europeia para as zonas rurais, quatro em cada dez residentes destas zonas disseram sentir-se deixados para trás, proporção que sobe para seis em cada dez nas zonas mais remotas. E como não? A Eurofound enquadra este modo de ‘sentir’ sem sentido como uma lacuna de reconhecimento, ou seja, sabe-se que o papel destas comunidades não é visto e sentido por quem decide. A filosofia chama a isto injustiça epistémica, que acontece quando a palavra de alguém vale menos por causa do lugar de onde fala, ou quando uma comunidade não encontra no debate público as palavras para dizer aquilo que vive. O interior foi muitas vezes descrito em Lisboa e em Bruxelas como um ‘problema’, com pouca gente e muito território, e poucas vezes escutado como lugar de gente que sabe de facto sobre a floresta, a água, o cuidado dos mais velhos ou o trabalho das mulheres que sustentaram e sustentam as fábricas das encostas da Serra da Estrela.

Este silêncio tem consequências no espaço público. Quando as pessoas sentem que ninguém as ouve, as narrativas simplistas que prometem dar-lhes voz encontram terreno fértil, e a investigação sobre os chamados lugares que não importam mostra como o ressentimento territorial se converte em desconfiança e em voto de protesto. A desinformação circula com mais facilidade onde a imprensa de proximidade enfraquece e onde as decisões europeias chegam traduzidas apenas em siglas de programas e avisos de candidatura.

O momento torna esta questão urgente. Discute-se em Bruxelas o orçamento europeu para 2028-2034, e a proposta da Comissão concentra nos governos nacionais grande parte das decisões sobre a coesão, com um corte real que o Governo estima em 17,4% nas verbas portuguesas para a correção desta injustiça. O Comité das Regiões tem alertado para o risco de as autarquias passarem a meras beneficiárias, e os dados europeus mostram que os cidadãos rurais confiam mais no poder local do que nas instituições europeias, o que significa que afastar as autarquias da decisão é retirar a palavra precisamente onde a confiança [ainda] existe.

A Europa que desejo para o interior é a que escuta antes de decidir, que reconhece o saber de quem habita estes territórios, as universidades, as associações, as escolas e os jornais regionais. Que reconhece que este é um lugar de lugares de gente sábia, distinta e sofisticadamente resistente.

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