Opinião: João de Jesus Nunes | A República e a Igreja: ecos do conflito na Covilhã
Por Jornal Fórum
Publicado em 26/03/2026 09:00
Opinião

A Implantação da República Portuguesa, a 5 de outubro de 1910, marcou o início de um período de forte tensão entre o novo regime republicano e a Igreja Católica. Esse período é frequentemente descrito como de acentuado anticlericalismo e de conflito entre o poder político e a religião.

Logo após a mudança de regime foram retomadas antigas leis pombalinas e liberais que proibiram a presença de congregações religiosas em Portugal. Os Jesuítas foram dos primeiros atingidos, sendo expulsos do país poucos dias depois da implantação da República, a 10 de outubro de 1910. Outras ordens religiosas seriam igualmente extintas e os seus bens confiscados pelo Estado.

Um momento decisivo foi a promulgação da Lei da Separação do Estado das Igrejas, assinada por Afonso de Costa a 20 de abril de 1911. Esta lei estabeleceu formalmente a separação entre o Estado e a Igreja, mas incluiu medidas consideradas hostis pelos meios católicos, como restrições ao culto público, limitações ao uso de vestes religiosas e interferências na administração de bens eclesiásticos.

Paralelamente, o novo regime promoveu uma forte política de laicização da sociedade: o ensino religioso foi retirado das escolas e símbolos religiosos, como o crucifixo, desapareceram das salas de aula.

Em vários pontos do país registaram-se também episódios de violência anticlerical, incluindo ataques a edifícios religiosos, destruição de imagens e restrições a manifestações públicas de fé, como o toque dos sinos.

Muitos republicanos, influenciados pelo positivismo e por correntes laicizantes, viam a Igreja como um dos pilares da monarquia e um obstáculo à modernização do país. A hierarquia católica reagiu com firmeza publicando uma pastoral coletiva contra a legislação de 1911, o que contribuiu para um clima que alguns contemporâneos designaram como verdadeira “guerra religiosa”.

Este ambiente de conflito apenas começou a atenuar-se durante o governo de Sidónio Pais, em 1917.

Também na Covilhã se sentiram os efeitos desta nova realidade política. Em 14 de agosto de 1911, a Comissão Municipal Administrativa dirigiu um pedido ao Governo para que fosse cedida ao município a Igreja de S. Tiago e a casa anexa, residência dos Jesuítas. No documento afirmava-se que a cidade, importante centro industrial então conhecida como “Manchester Portuguesa”, esperava finalmente ver atendidas as suas necessidades após décadas de abandono.

O pedido justificava-se com objetivos práticos: instalar nos edifícios serviços municipais e repartições públicas, evitando pagamento de rendas e dotando a cidade de instalações condignas.

Anos depois, segundo atas da Câmara Municipal de 30 de junho de 1913, a Comissão Administrativa tomou posse da igreja paroquial de São Pedro. O edifício seria posteriormente destinado à demolição, após publicação de editais convidando eventuais interessados a reclamar lápides funerárias ou a exumação de ossadas existentes no interior do templo.

Outros documentos da época revelam igualmente o ambiente de suspeição e vigilância que se vivia. Num ofício de 24 de abril de 1911, a Câmara comunicava ao Governo informações sobre uma mulher que regressara de Espanha após ter ido confessar-se e cumprimentar o conhecido Jesuíta Padre Cruz que esteve em S. Tiago, na Covilhã. O simples facto de transportar pequenas imagens religiosas levantou suspeitas de que pudessem transportar correspondência clandestina.

Estes episódios ilustram como as grandes transformações políticas nacionais tiveram reflexos concretos na vida local e no quotidiano das populações.

Recordo-me ainda de que, anos mais tarde, na antiga casa dos Jesuítas funcionou o Tribunal Judicial da Covilhã, onde acompanhei meu pai em algumas ocasiões para tratar de assuntos relacionados com os meus avós maternos.

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