Aproximando-se a festa da Páscoa, a mais importante festa Cristã, mais que nunca importa salientar uma passagem da Paixão coberta de utilidade e, principalmente, de atualidade. Um ponto prévio para lembrar esta atualidade, por vezes alegórica, por vezes diretamente comparada, com toda a história bíblica, mais acentuadamente no período do Judaísmo de Segundo Templo. Sem prejuízo da inspiração divina, persiste, na verdade, a natureza humana, pouco evolutiva e facilmente inflamável. A passagem a que me refiro demonstra bem a falta de evolução do pensamento humano e a atualidade das advertências de Cristo.
Após a prisão e julgamento no Sinédrio, Jesus é apresentado e questionado pelo Governador Romano da Judeia, Pôncio Pilatos. Após indagar e, mesmo, concluir pela inocência de Jesus, segundo tradição da época, questionou a multidão presente em Jerusalém sobre qual dos presos deveria soltar. A escolha da multidão recaia, então, sobre duas personagens: Jesus ou Barrabás.
Sobre Cristo, sempre haveria algo a dizer, mas já todos O conhecem e a Sua história. Para o que nos importa aqui, releva a Sua proposta — uma proposta de elevação mental e emocional em relação ao mundo físico, uma proposta de retidão contra a hipocrisia, uma proposta de inclusão contra as barreiras humanas. Todas estas propostas não eram as esperadas pelos judeus de Segundo Templo, quando antecipavam o Messias. Esperavam o Filho de David bélico, comandante de milícias terrenas e com o poder de aniquilar os Romanos. Não era essa a proposta de Jesus.
Sobre Barrabás não há muito informação fora dos Evangelhos. É descrito como um mal feitor, bélico, ladrão ou fora da lei. Podemos supor fazer parte do movimento zelote que combatia belicamente a ocupação romana. Alguns académicos bíblicos parecem apontar no sentido deste individuo ser um revolucionário, participante em insurreições. Não era incomum surgirem figuras assim; até depois do tempo terreno de Cristo continuaram a aparecer — por exemplo, Simon Bar Kokhba que liderou revoltas posteriores contra os Romanos, acabando também morto. Também era comum aparecerem, entre os judeus, figuras semelhantes à mensagem de Jesus — como João Baptista e outros profetas anteriores — propagando uma mensagem de retidão e não de luta armada.
Isto para dizer o seguinte: o que aquela multidão tinha à frente não era uma novidade. Era algo eterno e perpétuo. Era a escolha entre o fácil e o difícil. Entre a ordem e o caos. E a multidão, sem ressalvas, aceitando as consequências, escolheu o caos. E escolheu o caos porque é o que mais se aproxima à derivação do ser humano, à tentação pelo adversário. A multidão tinha de escolher o caos e era espectável que o fizesse. O que é pouco normal é que continuemos, passados dois mil anos, a não aprender com a multidão.
Não aprendemos porque valorizamos a aparência imediata das coisas, a vingança em boomerang, num vai vem sem fim. Fundamentalmente, preferimos o bonacheirismo e a irresponsabilidade. Preferimos o sofrimento alheio e a indiferença, à ação calorosa. Sem dúvida, hoje, a escolha da multidão seria a mesma.
Votos de uma Santa Páscoa.