José R. Pires Manso, Prof Catedrático UBI, responsável do Observatório (ODESI)
A economia global está num ponto de inflexão que resulta da combinação entre crise climática, escassez de recursos, volatilidade energética e pressão social pela busca de modelos mais justos. Esta combinação tornou evidente que o paradigma linear — extrair, produzir, consumir e descartar — já não responde às necessidades do século XXI. É neste contexto que a economia circular emerge como uma das estratégias mais promissoras para combinar desenvolvimento económico e sustentabilidade ambiental.
A ideia central é simples: manter materiais e produtos em circulação durante o maior tempo possível, reduzindo desperdício, emissões e dependência de matérias‑primas virgens ou sem prévia utilização. Mas a sua aplicação prática é tudo menos vulgar pois exige inovação tecnológica, mudança cultural, novos modelos de negócio e inclusivamente políticas públicas capazes de orientar a transição.
Um modelo económico em transformação: A economia circular não se limita à reciclagem dos produtos. Inclui estratégias como reutilização, reparação, remanufactura, simbiose industrial e design regenerativo. As empresas que adotam estes princípios conseguem reduzir custos, aumentar eficiência e criar valor em cadeias de produção mais resilientes. Mas em países como Portugal, com forte dependência da importação de recursos, a circularidade representa também uma oportunidade estratégica de competitividade.
A União Europeia tem vindo a reforçar este caminho através do European Green Deal (Pacto Verde Europeu) e do Circular Economy Action Plan (Plano de Ação para a Economia Circular), que, conjuntamente, estabelecem metas para setores como têxteis, eletrónica, construção e agroalimentar. A pressão regulatória está a acelerar a mudança, mas o ritmo é ainda muito desigual entre setores e regiões.
Sustentabilidade: o pano de fundo essencial: A economia circular é frequentemente apresentada como solução para a sustentabilidade, mas importa reconhecer que circularidade e sustentabilidade não são sinónimos. Um produto pode ser circular sem ser sustentável, por exemplo, se utiliza biomassa em excesso ou se depende de energia intensiva. Nesse sentido, a literatura mais recente defende uma abordagem integrada, que articule circularidade com limites ecológicos, justiça social e redução efetiva de emissões de gases com efeito de estufa (GEE). A sustentabilidade exige ainda métricas claras, um dos maiores desafios atuais. Falta padronização, falta transparência e faltam indicadores que permitam comparar setores e países. Sem métricas claras e fortes, a economia circular corre o risco de se tornar um slogan vazio.
Tecnologias emergentes e novos setores: A transição circular está a ser impulsionada por tecnologias inovadoras, muitas ainda em fase inicial. Entre as mais promissoras destacam‑se: i. bio-refinarias de insetos — capazes de transformar resíduos orgânicos em proteínas, óleos e fertilizantes; ii.microalgas e bioprocessos de ciclo fechado — com potencial para produzir bioplásticos, biocombustíveis e ingredientes alimentares; iii.sistemas bioeletroquímicos — que convertem resíduos em energia e compostos químicos de valor; e iv. biotecnologia aquática — essencial para uma economia azul sustentável. Estes novos setores representam novas fronteiras económicas, mas enfrentam desafios de escala, custos e regulamentação. Sem investimento público e privado consistentes, o seu potencial pode ficar por explorar.
Portugal – entre o potencial e o atraso estrutural: Portugal tem condições favoráveis para liderar segmentos da economia circular: forte base agroalimentar, recursos florestais, tradição industrial e crescente aposta na economia azul. Contudo, os dados actuais mostram que a adoção ainda é lenta. As empresas reconhecem a importância da circularidade, mas muitas permanecem em fases iniciais de implementação. A falta de capacidades técnicas, a escassez de financiamento e a ausência de métricas claras são obstáculos recorrentes. A transição exige também uma mudança cultural: passar de uma lógica de curto prazo para uma visão sistémica e colaborativa.
O papel das políticas públicas: Nenhuma transição sistémica acontece apenas pela ação das empresas. É necessária governação coordenada, com políticas que incentivem inovação, reduzam riscos e promovam justiça social. Entre as medidas mais eficazes destacam‑se: i. incentivos fiscais para modelos circulares; ii. investimento em investigação aplicada; iii. regulamentação clara para novos materiais e bio produtos; iv. programas de capacitação para PME; e v. integração da circularidade nos currículos escolares. Sem estas condições, a economia circular não se consolidará como estratégia nacional.
O papel das empresas: de obrigação a vantagem competitiva: As empresas são atores centrais na transição circular. A sua ação determina o ritmo da mudança, a escala das soluções e a capacidade de transformar cadeias de valor. Três dimensões são decisivas: i. Inovação no design — produtos concebidos para durar, ser reparados e reintroduzidos no ciclo produtivo; ii. Modelos de negócio circulares — serviços de aluguer, partilha, remanufactura, logística reversa e plataformas digitais; e iii. Simbiose industrial — cooperação entre empresas para transformar resíduos de umas empresas e produtos em recursos de outras.
A circularidade já não é apenas uma obrigação regulatória: é uma vantagem competitiva. Reduz custos, aumenta eficiência, melhora reputação e abre portas a novos mercados. As empresas que não se adaptem arriscam perder relevância num mercado cada vez mais exigente.
O papel dos cidadãos – da mudança de hábitos à pressão social: A transição circular não depende apenas das empresas e das políticas públicas. Os cidadãos são agentes decisivos, tanto pelo comportamento de consumo como pela pressão social que exercem. Três áreas são particularmente relevantes: i. consumo responsável — escolher produtos duráveis, reparar em vez de substituir, evitar desperdício; ii. participação ativa — apoiar marcas circulares, exigir transparência, valorizar empresas com práticas sustentáveis; e iii. cidadania ecológica — separar resíduos, adotar compostagem doméstica, participar em iniciativas comunitárias. a mudança cultural é tão importante quanto a tecnológica. Sem cidadãos informados e exigentes, a economia circular não ganha escala.
O futuro – de conceito a prática: Para que a economia circular cumpra o seu potencial, é necessário ultrapassar três barreiras fundamentais: i. clarificar métricas e conceitos, evitando confusão e greenwashing; ii. escalar tecnologias emergentes, garantindo viabilidade económica; e iii. criar modelos de governação inclusivos, envolvendo empresas, estado e cidadãos.
Se estes pilares forem cumpridos, a economia circular poderá tornar‑se um dos motores mais importantes da sustentabilidade global — e uma oportunidade estratégica para Portugal.