Opinião: Teresa Inácio Neves | Em “Modo Poupança”
Por Jornal Fórum
Publicado em 01/10/2026 09:00
Opinião

Se algum dia me dissessem que o retrocesso passaria a ser uma figura presente no nosso futuro, eu jamais acreditaria.

Crescemos a pegar na caneta como forma de viver um futuro pleno, convictos de que a educação nos garantiria um caminho repleto de estabilidade e esperança. Abdicámos do trabalho pesado, na doce ilusão de que suar do corpo era o pior dos rendimentos, e focámo-nos em objetivos que pareciam cristalinos desde o berço.

Na teoria, e talvez com base num estudo a médio longo prazo, fosse possível entender como a nossa geração, bem como as que se lhe sucedem, tinha absolutamente tudo para dar certo.
Mais direitos.

Obviamente mais deveres.

Mas mais qualidades.

Tudo para sermos as criaturas mais inteligentes, capazes e dotadas de qualidades excecionais que a linha evolutiva já ousou ver.

Falo-vos de inteligência pura, de devorar conhecimento.

Capazes não de decorar, mas de fazer e criar.

Não a história da vida, mas a vida da história na verdade.

E eis que, pela primeira vez em muitos séculos de evolução, nos deparamos com a ironia do destino. O retrocesso.

Uma viragem no guião que os anteriores escreveram com calma.

Pela primeira vez somos as gerações que são menos inteligentes que as anteriores, parece que não fizemos bem o trabalho de casa.

Mas o pior de tudo isso é que na verdade, não estamos propriamente importados com a questão aqui apresentada.

Dizem, os amantes dos números e das coisas inexplicáveis que apenas usamos uma parte do cérebro, aparentemente nós usamos ainda menos.

A vida foi, de certo modo, facilitada. E nós adoramos.

A nossa existência acomodou-se para ser ridiculamente prática, desde a lida da casa à lida da mente.

Para quê raciocinar quando os motores de busca resumem e a inteligência artificial explica. Ou telemóveis que além de chamadas funcionam como calculadoras e dicionários, câmaras fotográficas e computadores. Ao troco do café que é automático, não imaginamos números de cabeça ou usamos os dedos para contar, e bem que éramos gozados na adolescência se ainda contássemos dessa forma.

Reduzimos o cérebro a um apêndice preguiçoso, mas na verdade a culpa é apenas nossa, não do progresso.
As dúvidas são facilmente explicadas e a 7ª arte virou uma réplica da réplica. Estamos condenados a um loop narrativo porque a originalidade está num dado viciado e dará muito trabalho sair dele. 

A decadência é visível a olho nu. Agora, os miúdos “farmam aura” nas redes; antes as batalhas de rap dominavam as esquinas com rimas sobre a crua realidade e ninguém levava a mal.

Agora, suamos sangue para cativar um algoritmo, que muda de humor a cada três dias.  Os perigos eram os desconhecidos da net, hoje somos nós o nosso próprio perigo.

Em tempos, debatíamos problemas com fervor e respondíamos pelos nossos atos. Éramos ativistas de causas pessoais. Hoje gravamos TikToks com carácter.

Hoje, o trabalho está feito por nós.

O progresso devia ser o antónimo de retrocesso, não o seu sinónimo. Que raio aconteceu?

Deixámos de pensar.

Mas não culpemos o progresso por favor, assumamos a culpa da nossa falta de vontade.

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