Opinião: Miguel M. Riscado | O que muda e o que fica nesta cidade?
Por Jornal Fórum
Publicado em 01/10/2026 09:00
Opinião

O que muda e o que fica neste local? Parece que tudo e parece que nada. Tudo permanece igual e tudo se altera constantemente. Nada muda, tudo se transforma, mantém-se a mesma substância. Mudamos nós. A nossa perceção, a nossa perspetiva, a nossa mentalidade.

Como podemos passar pelos mesmos locais e sentir coisas diferentes? A nostalgia do passado, a ausência do presente, o receio do futuro. Tudo num local onde não nos lembrávamos do passado, sentíamos o presente e não temíamos o futuro. Tudo num local onde temíamos o passado, sentíamos nostalgia do presente e não nos lembrávamos do futuro.

Se não muda nada no local, olhamos para o outro termo da equação. Como mudamos nós e o que nos faz mudar? O que fica e o que muda... algo interno ou algo externo... algo ausente ou algo tocante?

Passar pelo local onde sempre passamos e sentir coisas diferentes. Passar pela rua que desce e a alegria subir. Passar pela rua que sobe e ficarmos sem fôlego. Passarmos por cima e por baixo, pela frente e por trás.

Olhamos à volta e procuramos compaixão, proximidade, um olhar que reconheça o que sentimos e que sinta o mesmo. Uma tentativa desesperada de nos unirmos com os outros seres humanos, que são, para o bem ou para o mal, uma continuação nossa e nós deles.

Olhamos porque não queremos ouvir. Tapamos os ouvidos. Música no máximo. Solos sem fim, gritos mudos. Compartimentamos os sentidos. Não queremos a experiência da vida completa. Queremos os períodos experimentais e a curta-metragem. Temos aversão ao filme, ao documentário, à noite sem fim.

Até deixarmos de ter. Até vermos a vida como um panorama e não como um slide. Até vermos a descaracterização da cidade e a diabolização dos seus personagens. Até vermos um anjo à frente. Até a escuridão se abrir com um feixe de luz e explodir um arco-íris vibrante.

A avenida não é mais o caminho de sempre. É uma autoestrada para o céu. É um troço de serafins e querubins. É uma partitura de trombetas. É um espelho de luz e de calor.

Será que o mundo é mesmo assim? Será que estamos a viajar? Como pode algo sombrio ficar tão reluzente? É incompreensível. É irracional. Não é mentalmente explicável, nem alcançável.

Tentamos compreender. Tentamos pensar. Tentamos raciocinar. Tentamos contar e soletrar. Tentamos ler e escrever. Bloqueamos. Ficamos imóveis.

E, no fim, ficamos na esplanada, com as cegonhas a voar, a ver as rosas nas varandas e a beber um sumo de manga.

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