AUTOR
Luis Maia – Professor Universitário Doutorado na Universidade de Salamanca, Espanha – Professor da UBI
Tem-me ocorrido ao longo dos vários anos de intervenção psicoterapêutica junto a várias populações de utentes um tema bastante divulgado e propagandeado: a ideia de que se qualquer um de nós fizer um esforço, tomar as atitudes corretas, orientar a sua vida de forma estável e consciente, então a felicidade individual estaria quase que assegurada, e os momentos de maior fragilidade ou de tristeza seriam apenas isso, apenas pequenos momentos.
Ora, o que parece ocorrer na maioria de nós é algo um pouco diferente. A maioria de nós parece travar uma batalha consigo própria para que essa busca pela felicidade seja uma constante, mas parece-me, apenas até uma certa altura da vida. Depois, com o tempo, com as experiências, as dificuldades vão-se acumulando e vamos percebendo que viver é uma tarefa árdua, e que por vezes mesmo, apenas em determinados momentos ou fases da nossa vida é que nos sentimos efetivamente felizes e realizados.
O que procuro aqui referir é que, se refletirmos bem, veremos que muitas das nossas angústias vêm do facto de esperarmos sempre demais dos acontecimentos. Esperamos sempre que tudo aquilo que fazemos, todas as pessoas que conhecemos mais proximamente, enfim, todos os nossos projetos nos realizem como seres felizes.
Isto parece-me atualmente um contrassenso. Já repararam que quando começamos um projeto qualquer (um relacionamento, um novo emprego, novos amigos, o que quer que seja) se depositarmos logo todas as energias e todas as esperanças na satisfação que possamos alcançar estamos automaticamente a colocar-nos num grande risco: o de nos desiludirmos imediatamente?
Peguemos como exemplo as relações de enamoramento, ou as paixões, que nos assolapam e nos fazem entrar numa espécie de transe, esquecendo muitas vezes que não se está preparado para tal tipo de acontecimento na vida. Alguém que esteja mais fragilizado, mais doente, mesmo psiquicamente, pode cometer um erro gravíssimo: iniciar esse relacionamento depositando de forma cega e com todas as suas esperanças todos os seus recursos, e espera, muitas vezes, da outra parte, o mesmo. Ora, pensemos bem: quando iniciamos algo, e logo de início utilizamos ou depositamos todos os recursos (psicológicos e emocionais) nesse mesmo desafio, o que acha que é mais provável acontecer? Manter a capacidade de esse relacionamento ou projeto, se manter num nível de constante realização ao mais alto nível, ou como por vezes costumo utilizar esta metáfora em psicoterapia, quando se dá tudo no início, o mais provável é que não se consiga manter, para sempre, esse mesmo nível de realização pessoal, e a partir daí, a partir desse momento, a maioria das vezes o que se pode esperar é a frustração de não se conseguir obter esse estado permanente de realização e felicidade?
Utilizo também muitas vezes uma metáfora bem compreendida e vivida por pessoas que praticam atletismo de grandes distâncias, uma meia-maratona, por exemplo. Qualquer atleta experiente sabe que não deve iniciar a prova com todas as suas forças e sair por ali a fora a correr desalmadamente, como se percorrer cerca de 21 quilómetros fosse algo que, se colocar todas as forças no início, passará de forma quase mágica. Qualquer atleta experiente sabe que deve iniciar a prova com cautela, controlando os seus esforços e os dos seus adversários, e apenas se se sentir em forma, se se sentir com forças para forçar o andamento da prova, para impor um ritmo mais forte que os seus adversários para depois sim, estabelecer-se confortavelmente numa posição que possa manter até ao final da prova; se não fizer isso, corre o risco de não conseguir manter esse mesmo desempenho, e acaba por ser ultrapassado por muitos ou ter mesmo que desistir, e mais uma vez o processo repete-se: quando se colocam todas as forças no inicio de algo, para alcançar o seu fim, muitas vezes, eu diria, demasiadas vezes, nem se consegue alcançar esse mesmo fim, ou até por vezes, como também aqui já refletimos, as vitórias tornam-se demasiado penosas e amargas.
Por tudo o que referi, tenho cada vez mais trabalhado com os meus pacientes o desenvolvimento de um dizer antigo que gostaria de aqui partilhar convosco. Diz-se que, por vezes, a felicidade, ou na sua procura, se compararmos com uma viagem de comboio, muitas vezes, a viagem, com algumas paragens positivas e negativas, é muito mais importante do que pura e simplesmente a vontade de chegar ao destino. No fundo, diz-se, a viagem é mais importante que chegar ao fim!!!
Obviamente que para alguns de nós tal metáfora pode não fazer sentido. Até porque muitos utilizamos a metáfora ao contrário. Por exemplo, é muito comum ouvirmos alguém dizer: não interessa muito que a viagem seja muito longa, demore muitas horas e tenha muitas paragens – no fim, tudo terá passado, e eu já estarei em casa. Obviamente que por vezes vamos sentido isso, que as nossas viagens em busca do que queremos, apesar de penosas, acabam por passar, e acabamos por, finalmente, alcançar os nossos objetivos.
Bom, no fundo o que queria refletir, e termino como talvez devesse ter iniciado esta crónica é que, por vezes, parece que é o facto de se estabelecerem expectativas demasiado elevadas para aquilo que queremos alcançar ou para aquilo que já alcançámos, mas que queremos continuar a manter eternamente, que contribuiu para o nosso sofrimento. Eu explico a minha ideia: é que para que tal aconteça, cada um de nós deve ser capaz de ir passando pelas fases menos positivas da nossa vida, desde o mais simples às coisas mais significativas, e retirar daí os ensinamentos necessários para lidar com situações semelhantes no futuro. Mais ainda, cada um de nós deve perceber que os momentos, as situações, o dia-a-dia, não tem de ser preenchidos por momentos de grande realização e satisfação plena.
Muitas vezes ocorre que, é porque são tão escassos esses mesmos momentos de felicidade e realização, que vamos dando mais valor a cada momento e àquilo que para cada um de nós é mais importante.
Contudo, como por vezes não somos capazes de ter uma perceção mais calma da vida, com menos expectativas, começamos a adoecer, começa-se a tornar patológica, doentia, esta procura de felicidade ou aceitação
Por vezes, repito, o melhor é centrarmo-nos em nós próprios e naqueles que nos são queridos, e lembrar-nos que para alguns, a viagem é mesmo muito mais importante do que a estação final a que se quer chegar.
Ser feliz pode ser uma meta, mas não deveria ser uma obrigação… apenas a mera consequência das nossas ações neste mundo.
Se conseguirem, sejam felizes nos pequenos momentos, e até à próxima crónica.
Para contactar o autor desta obra, é favor consultar:
- Página web de Luis Maia: www.luismaiapsicologia.com
- Email: luismaia.gabinete@gmail.com
- Cédula Profissional da Ordem dos Psicólogos, n.º 102
- Mestre em Neurociências pela Faculdade de Medicina de Lisboa
- Professor Doutorado – Universidade da Beira Interior
- Neuropsicólogo Clínico, Doutoramento (USAL - Espanha)
- Especialista Médico Jurídico – Pós-Doutoramento (Instituto de Medicina Abel Salazar - Porto, Portugal)
- Licenciatura em Neuropsicologia Clínica (USAL - Espanha)
- Licenciatura em Proficiência Investigativa em Psicobiologia (USAL - Espanha)
- Licenciatura em Psicologia Clínica e da Saúde (Universidade de Minho - Portugal)
- Perfil completo no CV- ORCID - https://orcid.org/0009-0008-0241-799X