Passeei pela cidade e vi tantas coisas diferentes.
Vi tantas coisas bonitas. Vi jardins verdes e árvores a mudarem de cor; vi fontes e águas correntes; vi gente a sorrir e a acenar; vi montanha ao fundo e, do outro lado, horizonte; vi jovens, adultos e idosos, de todas as origens e todas as cores; vi velhinhos bem vestidos e jovens com calças largas; vi mulheres com cabelo rapado e homens com cabelo comprido; vi barbudos e mulheres bonitas; vi um rosário na mão e dois a voar; vi mães com filhos no carrinho, no colo e de mão dada; vi amigos a falar e a brincar; vi esperançosos a raspar; vi gente trabalhadora, sem horários, nem hora de ir para casa; vi doces e salgados, talvez demasiados; (ou)vi a música.
Vi tantas coisas feias. Vi autocarros abarrotados; vi lixo no chão; vi má educação; vi o fim da natureza, uma selva de betão; vi atrasos, carros e confusão; vi riqueza e pobreza em excesso; vi negligência e indiferença; vi hipocrisia e cobardia; vi arrogância e prepotência; vi a descaracterização de uma cidade e a diabolização dos seus habitantes; vi a morte a levar velhos e novos.
Talvez não tenha visto nada disto e tenha só imaginado. Há uma magia que, penso, transborda desta cidade. Mas cada vez mais sinto que não. Que é só mesmo algo da minha cabeça. Que é só uma perspetiva de alguém desequilibrado, ora muito positivo, ora muito negativo. A cidade, essa, é sempre a mesma e não muda. Há uns anos falava com um amigo meu e discutia os efeitos da pandemia na nossa vida. Quando lhe descrevi o quão limitada a minha vida se havia tornado e o sofrimento em que estava, disse-me, sem hesitar, que não era do meu ambiente, mas que era algo meu. Era a minha visão das coisas. Ora, se a visão é minha, por muito influenciada ou influenciável que seja pelas minhas redondezas, afinal tenho o poder de escolhê-la. E se tenho esse poder, essa capacidade, essa competência de abstração, porque não o hei de usar para pintar um quadro positivo?
Mas esse quadro fica turvo quando confrontado com os quadros dos outros (ou falta deles). Quem tem uma perspetiva estanque das coisas, bloqueia a criatividade e a visão otimista. Se calhar a minha visão também é estanque. Se calhar são todas. Se calhar é só uma tentativa de branquear a realidade. Ou melhor (ou pior): uma tentativa de tentar fugir ao máximo da realidade.
A realidade é o quê? É a perspetiva, a visão, que temos das coisas? É a objetividade que as coisas têm? Que coisas são estas? O crédito à habitação, o emprego (sim, porque o trabalho, não), o futuro, o progresso, o retrocesso, o abcesso, o excesso, o ficar possesso? Não faço ideia. Não fui preparado, nem me preparei para viver a vida na normalidade. Isso é muito mau. Há deslumbre, há ilusão, há bruma, há imprevisibilidade, há risco.
Quanto mais ando e mais passeio, parece que menos coisas vejo. Isso faz-me pensar que vejo com a minha mente e não com os meus olhos. Pois quanto mais ando, maior a clareza. E se a clareza é maior, paradoxalmente, é menor a minha luz. Porque eu diminuo e o mundo real aumenta. Afinal, o mundo real não é medonho, nem assustador. Afinal, o mundo real é apático, imutavelmente “meh”, é o que é. Acredito, ainda assim, que entre o “ser” do mundo real, o “dever ser” das nossas conceções e o “não pode ser” das nossas limitações, existe um mundo tão reluzente, tão brilhante, tão colorido e tão quente que, ainda que em migalhinhas, nos alimentará para sempre. Que esse mundinho nunca morra e viva sempre em nós.