Na romaria da Senhora da Estrela, nas terras que foram do extinto Colégio de S. Bernardo de Coimbra, conspirava-se. A capelita abarrotava de gente. O padre Barbas da Torre confessava as suas filhas espirituais, depunha a hóstia nas línguas saburrentas e gretadas das beatas. O sacristão, com os dentes negros como o chamiço, avisava S. Senhoria que, daquelas já não havia mais! Era a crise do trigo e do milho.
Cá fora, armavam-se no adro dois tabuleiros, assentes em tripeças de engonços, tapados por paninhos coloridos dos Mendes Veiga. O pão dos anjos desaparece num ápice! A ribeira do Espirito Santo seguia muito chupadinha, na direcção do Zêzere. Já não movia as rodas dos moinhos de Dona Leonor Emília Tavares.
Nos muros da capela derrubada do Espirito Santo, preparava-se, para essa noite, uma intentona. Os da Covilhã querem mandar o António José Morão de Castelo Branco e o comendador Valério Gomes, muito juntinhos, muito enfarinhados, no lombo de um burrico, para o Terreiro do Paço. Até o almocreve de S. Pedro, freguesia de Poiares, comungava das dores dos conspiradores. O vendedor de arroz, que por aqui passava uma vez por mês, era perseguido pelo administrador do concelho. Parece que no meio das sacas de arroz, o “detrás da serra” colocava umas pedrinhas. Coisa pouca! Os filhos do “Come Nada”, uns borrachanas, com a pirisca acesa no cantinho do beiço, eram os mais eufóricos:
- Que os leve o Diabo para bem longe!
Corria o boato, de que os ditos açambarcavam todo o pão da Cova da Beira. Esticavam o preço dos cereais. Só o Morão, dizia-se, comprara mais de quarenta mil alqueires! Eles, que eram os mais ricos do distrito, não deixavam que os do povo, saboreassem o seu caldo, a sua broa de milho. Usavam o pão, vejam lá, para queimarem nas suas máquinas de destilação de água-ardente.
Nessa noite, os foguetes, soberbamente deitados por um rapaz manco e vadio a troco de doze vinténs, dados por um dos filhos do Alçada, dão inicio à festa. O movimento tumultuário nasce nas freguesias de S. Pedro e Conceição, embica pelas ruas Direita e Senhora do Rosário, desagua no Pelourinho. Menos de cem, no dizer da autoridade, e mais de duas mil pessoas, derrancadas, famintas, aos olhos da organização. Abalroavam-se as portas do Valério, gritavam-se vivas a “Sua Majestade El-Rei, O Senhor Dom Pedro Quinto”. Uma sarrabulhada!
Alguns, descem até à Ponte da Dona Joana, na direcção do Teixoso. Querem esculhambar as máquinas de água – ardente. Que repousavam ébrias no Teixoso, na quinta do comendador. As palavras, sábias e prometedoras, do capitão Salcedas aquietam. Mandam a malta para casa. O Francisco Joaquim da Silva Campos e Melo estava em Lisboa. Dizia nas suas lojas e nas ruas públicas, que o povo da Covilhã tinha razão.
Do lado sul da Gardunha, o António José Morão esbugalhava no administrador do concelho da Covilhã:
- Eu requisitado para inculcar testemunhas! Eu que vivo a nove ou mais léguas do campo de acção de tão belas façanhas!
Alanzoava-se que ali havia dedo do João Mendes Alçada, que, curiosamente no dia da turba, estava de purga de um “cómodo de saúde”. Uma conspiração de políticos de campanário, era o que era!