Opinião: Marcos Leite | A emoção e a memória
Por Jornal Fórum
Publicado em 26/02/2026 09:00
Opinião

Há um deserto de emoções no meio de um dilúvio de informações. Por onde quer que olhemos, deparamo-nos com cenas da mais absoluta falta de empatia e compaixão. São poucas as pessoas hoje em dia que vivem para servir. Infelizmente, pois há muitas que em breve não servirão para viver. A razão destas frases impactantes é uma só. As novas gerações parecem associar as emoções ao que Bauman chamava de «modernidade líquida». Como se a vida imitasse o «scroll» de um telemóvel. Não significa que os jovens não tenham sentimentos ou que não sintam. Longe disso. O que afeta estes corações é um impercetível exagero, quase natural, fruto da quantidade de informações a que acedem, levando-os a uma banalização da emoção.

Para alguns, como eu, a boa memória pode ser um problema. Ela acontece quando o sujeito é emotivo ou tem no córtex pré-frontal, ou em qualquer outro lugar do cérebro, uma predisposição genética para armazenar as coisas do passado. Porque é justamente ela, a desgraçada da emoção, a responsável por fixar na nossa memória a vida que já passou. E não sou eu que o digo, é a ciência, mais precisamente a neurociência. Poder-se-ia até avançar mais: quem não se emociona, não se lembra.

Há quem chame este resgate do passado de nostalgia. Há outros que lhe chamam saudosismo. Agora, depois de ter vivido um bom bocado, quando já me dou conta de que o corpo que carrega essas memórias não tem mais a mesma plasticidade que o cérebro, passo a perceber que isso é quase uma doença. Uma disfunção social que, às vezes, nos faz pensar que estamos a viver no passado. Imagino então quem tem menos perspetiva de vida. Quem já tem mais tempo vivido do que tempo de vida. Não há como não olhar para trás e, de certo modo, viver do que passou. É da natureza humana.

Embora seja um privilégio ter boa memória, lembrar a vida com tanta facilidade pode ser problemático em alguns casos. Imagine alguém que tem a memória fraca, bem fraquinha. Daqueles que repetem o voto no mesmo político, mesmo sabendo de todas as asneiras que cometeu no passado. Agora, imaginem que o sujeito passou dez anos a dormir e acordou de repente. Quanta coisa estranha não sentirá essa pessoa. Primeiro o sujeito desperta, sem saber que o tempo passou. Resolve ligar o computador e ver as notícias. Que cena! Quando se aperceber do que se passou, a quantidade de eventos ocorridos irá certamente deixá-lo em choque. Agora, imagine se o tempo que passou foi vinte ou trinta anos. É isso que acontece na cabeça de um velhote quando conversa com um jovem que não conhece a História.

As últimas décadas apresentaram-nos muitos acontecimentos. Quem estivesse adormecido certamente não reconheceria o mundo em que estamos. Tivemos de tudo entre esses vinte e trinta anos. Realmente, muitos factos históricos, mas talvez menos do que nos últimos dez. E será que podemos imaginar que tudo isso seria previsível? Talvez. As questões planetárias, por exemplo. Hoje, é fundamental falar de alterações climáticas. Ainda se dá mais atenção aos efeitos do que às causas. Continuamos a viver do mesmo modo consumista de 1996, 2006 e 2016. Uma busca desenfreada por elementos de distração que fazem com que vivamos «a dormir» para não nos darmos conta da desordem que o homem causa ao planeta. Será que vivemos assim para não nos emocionarmos? Para não desenvolvermos empatia? Será? Pergunto-me se as novas gerações têm esse défice de empatia por causa da nova forma de ver o mundo ou se se trata de uma questão orgânica.

Aos que têm boa memória, voltar dez, vinte ou trinta anos não é difícil. Mas como será viver daqui para a frente? No meu caso, daqui a trinta anos terei oitenta e dois. Serei certamente como a personagem centenária de Gabriel García Márquez em «Memória das Minhas Putas Tristes».  Um veterano em busca de emoção. Os que hoje têm a juventude a pulsar, os que já despertaram para a vida real, por vezes cinzenta, terão a idade que hoje tenho. Quiçá, não terão o privilégio - ou desprivilégio - da minha memória. Contas feitas, sabemos, cada um é cada um. De igual forma, sinto pena de quem não se permite sentir emoção, de quem vive dentro de um congelador, sem se permitir sentir o calor da vida e o poder das relações. Para esses, viver não terá valido a pena. A sorte é que não vão sequer perceber ou lembrar porquê.

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