Opinião: Paulo Lopes | Uma Caminhada na Páscoa
Por Jornal Fórum
Publicado em 26/03/2026 09:00
Opinião

Equipados com fatos de treino, deslocavam-se compassadamente com um ritmo intenso, naquele quase fim de tarde. Desciam a avenida, aparentemente imunes ao trânsito. Buscavam o parque ao fundo onde poderiam fazer o seu exercício diário sem os ruídos do tráfego.

Estavam quase a chegar quando, por causa de um lancil pouco proeminente, ela colocou mal o pé, soltou um grito de dor enquanto a expressão no seu rosto mostrava bem o sofrimento súbito e inesperado com a entorse acabada de contrair. O marido adivinhou logo o que se passava. Amparou-a, deu-lhe o braço. Ela permanecia com o pé no ar, tentando dominar a respiração algo arquejante e procurando suportar a dor que sentia.

Retomaram a marcha, deslocando-se devagar, procurando chegar ao banco que avistavam já no início do parque. A custo, com tempo, lá se sentaram, pois a dor persistia. O marido, com um joelho em terra, começou por lhe desapertar os atilhos, descalçando-a, procurando aquilatar a gravidade da situação. Toda a zona estava avermelhada, pressagiando um inchaço futuro e uma imobilização por uns dias. Olhou para a mulher e nada disse, pois esta também se apercebera das possíveis consequências de um simples tropeção.

Ficaram uns momentos sem proferir palavras. Ele levantou-se quase ao mesmo tempo que um homem passava por eles em corrida ligeira. Olhou para trás, hesitou e parou uns metros à frente. Virou-se e, deslocando-se a passo, observou a lesão. Perguntou se necessitavam ajuda, obtendo como resposta os olhares consternados do par. Aproximou-se um pouco mais como que querendo observar melhor o tornozelo da mulher. Apresentou-se ao casal. Referiu ser professor de Desporto e estar habituado a situações destas. Olhou, mais uma vez, para a entorse e referiu parecer-lhe não ser nada demais. Pousou a pequena mochila que trazia, abriu-a, sacou um “spray” informando que era um daqueles dispositivos que aliviavam a dor, pediu licença e espalhou-o pela zona afectada, esperou uns segundos e sorriu para a mulher ao ver-lhe, no rosto, um certo alívio. O marido também mostrou satisfação e tal foi o ponto de partida para o início de uma conversa informal e de circunstância.

Passados poucos minutos, o professor perguntou à mulher se já conseguia andar, ao que esta se levantou pressurosa, tentando ensaiar uns primeiros passos. Logo caminhavam lado a lado. A mulher confidenciou-lhe que chegara a temer que o fim de semana de Páscoa tivesse ficado comprometido. Ao olhar curioso do professor, respondeu que iriam passá-lo ao Algarve. A intervenção deste tinha sido providencial. Quase em simultâneo, o casal perguntou-lhe se também tencionava passar a Páscoa fora. O professor abanou negativamente a cabeça ao mesmo tempo que referia que, para ele, a Páscoa era algo demasiado importante para passar fora de casa. Reparando no olhar intrigado dos dois, começou a explicar-se.

Gostava de passar a Páscoa frequentando as cerimónias religiosas na sua paróquia e participando nas procissões de Domingo de Ramos e de Sexta-Feira Santa. Isso, para ele, era o mais importante. O casal observou um breve silêncio. Uns segundos depois, a mulher referiu que eles faziam questão de passarem o Natal em casa com a família alargada, mas que, na Páscoa, já com bom tempo gostavam de dar uma escapadinha. Ele não disse que não, mas, para ele, a Páscoa era mais importante que o Natal. A Páscoa era o cerne do cristão por causa da Ressurreição de Cristo. A Páscoa era também sobre o perdão e que a pessoa principalmente beneficiada pelo perdão era aquela que perdoava, que não guardava azedume no coração. Não que esquecesse, não tinha que esquecer, mas tinha de limpar o seu espírito desses azedumes para se sentir livre, tal como alguém que após retirar um espinho da pele sente uma sensação de alívio. No fundo, a Páscoa também era uma época de liberdade, de libertação.

Continuaram a caminhar, devagar, enquanto o professor lhes explicava que a Páscoa era o ponto mais alto da Fé Cristã e os motivos para tal. Eles ouviam-no atentamente, quase embevecidos com as explicações que dava. Assim continuaram a caminhar até ao entardecer.

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