Opinião: Miguel M. Riscado | Do senso comum à falta de senso
Por Jornal Fórum
Publicado em 23/04/2026 09:00
Opinião

Uma das grandes questões de método da Filosofia é saber se devemos partir do senso comum para chegar a uma conclusão verdadeira ou se devemos romper com o senso comum e partir do seu contrário, como que desprovando-o, para alcançarmos a verdade. Poderá parecer desajustada ou irrelevante esta discussão do ponto de vista prático. Mas se pensarmos no automatismo das nossas ações e crenças quotidianas, talvez seja interessante fazermos um pequeno excurso sobre esta matéria.

Não é adequado, como em qualquer questão, chegar a um ponto extremo e completamente desequilibrado neste tema. Matérias haverá em que o senso comum não pode ser contraditado: pense-se, por exemplo, nas superstições ou nas tradições. Quer umas, quer outras, não servem, necessariamente para o aumento material do conhecimento, mas adornam a vida diária com preciosismos, alguns mais bacocos, e tendências. Também os receios, os medos e as fobias influenciam diretamente a vida e a ação humana, sem ter cariz racional. E nem assim são desconsiderados em conversas e em escolhas de vida.

Mas nem tanto ao mar, nem tanto à terra. O senso comum não pode ser a matriz da decisão humana em questões evidente e documentadamente negadas. Veja-se a velha mania de não se tomar banho até a digestão estar terminada ou a discussão de saber se coisas quentes ou frias é que fazem bem à garganta. Ainda que persistam dúvidas em situações muito específicas, existem consensos tão cabais que não podem ser afastados por crenças particulares. E o mesmo se diga do contrário: a postura elitista por vezes apresentada pela ciência, causa mais mal que bem na informação do público em geral. O argumento do confronto ou da autoridade criam um anticorpo. Ao invés de passaram a informação, criam aversão à mesma, por se apresentar de modo extramente técnico ou salamalequizado.

Duncan Watts, em 2011, publicou Everything is Obvious (Tudo é Óbvio), com o interessante subtítulo, que inspira o título desta crónica, Common Sense is Nonsense. Na obra, o Autor procura afastar os misticismo do senso comum e apresentar uma abordagem mais real à vida humana, com base em experiências diárias em pequena escala e a reações adequadas a acontecimentos presentes, ignorando os “fantasmas” que possam pairar sobre qualquer tema ou situação.

Usando a velha expressão de Rawls, o que Watts vem apresentar é a abordagem à vida com um “véu de ignorância” constante. Ainda que assustador à primeira vista, seria uma postura mais humilde de encarar a vida. Sem preconceitos e alegados pretextos de reação, imagina uma sociedade mais genuína no seu funcionamento, com todos os benéficos socioeconómicos associados.

No fundo, falta abordar a ideia que nos faz recorrer ao senso comum: a segurança, o receio de errar e a necessidade de controlar todos os aspetos (incontroláveis) da nossa vida. Os sabichões do dia a dia, mais não são que humanos, como todos os outros, inseguros. Criam então um culto ao que acreditam para guiar a vida e, assim, inconscientemente, se fecharem a tudo o resto. Duvidar, afinal, pode às vezes ser bom. Pode levar-nos por novos caminhos e desamarrar-nos das nossas próprias amarras.

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