Se alguém tiver a audácia de me dizer que os problemas mentais continuam a ser desvalorizados, serei a primeira pessoa a acenar afirmativamente com a cabeça.
Vivemos, ironicamente, na era de ouro dos diagnósticos. O nosso estado contemporâneo faz brotar novas condições e siglas catitas a uma velocidade estonteante. Temos um acrónimo para cada neurose, mas, em contrapartida, a única coisa que cresce mais depressa do que a lista de ansiedades são os valores incomportáveis que nos cobram por uma mísera hora de consulta.
Para o cidadão comum que recorre ao nosso adorado SNS, tratar da mente é um jogo de sorte. Assemelha-se a jogar ao bingo à quarta-feira, ora sabemos que o prémio existe, dizem que alguém já ganhou, mas a nossa cartela está invariavelmente vazia.
Várias vezes.
São vastas as tentativas e poucas as soluções dadas. Somos muitos dizem. Mas descontamos.
Resta-nos a fuga para o privado, que logo se transforma numa odisseia burocrática.
Para ser “acessível”, é-nos exigido por seguradoras e/ou subsistemas uma autorização médica prévia de que precisamos de ser acompanhados (uma verdadeira piada de mau gosto para a vasta fatia da população que vive na caça ao mítico médico de família), para se implorar uma parte do valor, quiçá no momento, ou, com muita sorte, uns longos meses mais tarde.
Talvez, quando a crise de ansiedade já foi engolida pela próxima.
Em vez de melhorarmos , pioramos.
Como se isso fosse tudo, deixem-me ainda reforçar que estamos numa época bela, onde se romantiza tudo, até uma cura que não passa de uma miragem para a esmagadora maioria.
É fascinante, para não dizer tragicamente irónico, observar a sociedade moderna, ora compreendemos o caos, dominamos a estratégia narrativa e partilhamos posts emocionados sobre a necessidade imperativa de pedir ajuda, mas ignoramos olimpicamente a falta de acessibilidade.
Transformámos o bem-estar num mercado de luxo. Idolatramos a psicologia, despimo-la do seu peso clínico e rebatizámo-la, de forma muito “gourmet”, de “terapia”.
O descalabro é tamanho que chegámos ao cúmulo de usar códigos de desconto de influencers de lifestyle, de forma a tentar pagar a saúde da nossa mente, ao invés de exigirmos políticas e seguros que a tratem com o mesmo respeito e urgência de uma cirurgia de última hora ao apêndice.
Afinal, saúde mental também importa.
Pelo meio, alterámos a estética. Trocámos a frieza asética dos consultórios brancos pelas consultas num banco de jardim ao ar livre, ou no suposto conforto do nosso sofá, através de consultas online.
Mas a democratização do espaço não trouxe a democratização dos preços.
E, embora nos grandes centros urbanos a variedade nos dê uma ténue ilusão de escolha, a conta no final do mês continua a não bater certo, pelo menos para as quantidades necessárias.
Como se isto fosse tudo… Existe ainda a fraca compreensão por uma geração mais dura, por uma altura em que era necessário ignorar. Por uma altura em que os maiores problemas eram outros e a mente, por incrível que pareça, ainda estava sã.
Mas vamos ao que realmente dói.
O processo desgastante que é procurar ajuda. Expor as entranhas da nossa vida a um estranho não é propriamente fácil.
Saltar de profissional em profissional até chegar “ao certo”, exige uma partilha exaustiva de uma história que não lhes pertence. No fundo, pagamos a peso de ouro para que demonstrem um interesse milimetricamente cronometrado nos nossos problemas, sendo que afinal é a profissão deles. E, apenas para, no final da sessão, nos devolverem nomes técnicos e pomposos para os quais não existe, ainda, qualquer tipo de solução.
Quando a incompreensão acontece, e ela acontece com bastante frequência, não se enganem, o ciclo repete-se.
Desistimos daquele gabinete, exaustos de não sermos entendidos, e corremos quando possível, para o divã de outro que, com jeitinho, nos diga exatamente aquilo que queremos ouvir.
Ou então, numa letargia muito nossa, simplesmente deixamo-nos estar. Vamos encolhendo os ombros, aguardando que o tempo resolva o que a “terapia” não curou, ou não quis curar.
E, gastando pacatamente o nosso dinheiro, sessão após sessão, na doce e romântica esperança de que a sanidade se possa comprar a prestações.
E habituamo-nos lentamente a algo, que de uma forma ou de outra, já faz parte de nós!