Opinião: António Rebordão | Os Meninos de Ontem
O QUE ERA A VIDA HÁ 75 ANOS – RELATOS VERIDICOS
Por Jornal Fórum
Publicado em 14/05/2026 09:00
Opinião

Nasci em 1948, numa aldeia onde não havia água corrente, eletricidade, muito menos gaz e muitas vezes pouca lenha para o lume.

Os candeeiros eram alimentados a petróleo. Os fogões a carvão. O aquecimento a brasas.

Pela casa fora havia velas para iluminar cada departamento. 

Tudo se poupava, como por exemplo os fósforos, o petróleo e as velas de estearina.

As casas eram pequenas e os móveis escassos, assim como as roupas e calçado que passava de uns irmãos para os outros, assim como os livros.

As maçãs, as peras, toda a fruta e verdura era a da estação, mas não havia carne e peixe, à parte de sardinhas, algum frango nas festas e a carne da salgadeira não se comia porque não se podia comprar.

As pessoas compravam meio quilo de massa ou arroz, um quartilho de azeite e dez tostões de cevada.

Não havia, na maior parte das casas, quarto de banho, as fraldas, tal como as de hoje, não existiam e muita gente da minha geração foi criada com farrapos velhos até começar a andar.

A escola era uma casa velha, para onde mais de noventa por cento dos alunos iam descalços, com roupas pouco recomendadas e muitas vezes o cabelo sem pentear e a cara cheia de moncos.

A casa de banho era debaixo da vinha e das laranjeiras do tio Manel da Azenha.

Muitas meninas não usavam cuecas (calcinhas). Quando o frio era muito urinavam pelas pernas abaixo para aquecer os pés.

Os medicamentos eram escassos, inexistentes, diria eu, por estes lados.

Médicos? Os médicos eram poucos, e a pagar, mas por aqui havia uma santa mulher, a dona Olivia, que era a enfermeira, a parteira e aquela que nos curava as feridas e nos dava as injeções.

Férias? Nada disso existia. Os poucos que tinham direito a elas aproveitavam para trabalhar e fazer pequenas obras em casa para não pagar a um jornaleiro.

Nós, desde tenra idade, eramos ensinados a trabalhar, pastar o gado, acartar água e lenha, ir á "Benda" e fazer tudo o que os pais ou avós mandavam. A palavra "não", não existia e o respeito e obediência aos mais velhos era obrigatório.

Os professores eram venerados, mesmo que depois de umas quantas reguadas o tema não fosse interessante.

A roupa era dividida, a do domingo e a da semana, não havia transgressões e a canalha não tinha prendas, no máximo um arroz de frango e um leite creme no dia do aniversário.

Carro? Carros eram os dos bois para ajudarem no transporte de tudo o que uma casa de lavoura necessitava e todos os elementos da família colaboravam nos trabalhos sazonais, tais como a vindima, a desfolhada, malhar o centeio e o feijão ou ripar a azeitona.

Quem fazia os recados eram as crianças que como já disse eram ensinados a trabalhar desde bem pequenos.

Os habitantes andavam a pé e iam de umas freguesias para as outras fazer as coisas necessárias.

As mulheres, essas, ficavam prenhas e pariam quando chegava a hora, sozinhas ou com a ajuda da parteira, e neste tempo as famílias tinham por norma um rancho de filhos.

Reformas? Ai reformas! Quem conhecia esta palavra? A reforma era trabalhar até cair, não havia subsídios de parto, de malandros, nem de coisa nenhuma, era trabalhar até morrer.

Ah! E agora, agora que tudo mostra indícios de riqueza e de grandeza, em festas e banquetes, em casarios e carrões, a luxos e desperdícios obscenos, agora está tudo mal.

Nunca o mundo viveu como agora, com direitos, bem viver, desperdiçando e gritando que não se pode viver.

Mas fazem ideia o que foi viver há 75 anos ou mais?

Afinal só quem vem lá de trás pode avaliar a sorte de nascer neste tempo.

Seria, de facto, bem pedagógico podermos ensinar às novas gerações a saber e conhecer estes caminhos, embora alguns da minha geração se neguem a admitir que “mijavam no penico”.

Felizes dos que o tinham. Muitos deles ou se levantavam de noite para ir à rua fazer as suas necessidades ou, quando havia mau tempo (chuvas torrenciais e constantes, naquele tempo) tinham de se valer de um balde ou alguidar.

As gerações de agora (e ainda bem que assim é) têm uma vida completamente diferente, com tudo, de mão beijada, nada lhes faltando.

Como exemplo, entre muitos, basta relembrar que há 75 anos não havia telefone (e muito menos televisão) e hoje, mal nascem, já têm todo um equipamento informático e móvel à mesinha de cabeceira.

Que seja bem-vinda a melhoria das condições de vida no decurso destes 75 anos ou mais.

Que “os meninos de ontem” possam dar por bem empregue todos os esforços, todos os sacrifícios que tiveram de desenvolver para poderem proporcionar aos vindouros uma vida mais regalada sem que se apercebam (a não ser através da história) do que foram os tormentos de um passado recente, na lembrança, mas longínquo dos episódios de cada um, que souberam (os que resistiram) ultrapassar a crise antiga.

Para nosso conforto (os séniores de agora), podem, finalmente, juntar o útil ao agradável, com melhor vida do que a que se viveu no passado.

Graças a Deus que assim é…

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