Opinião: Miguel M. Riscado | Como me enganas, meritocracia…
Por Jornal Fórum
Publicado em 09/01/2026 11:31
Opinião

Desde o estabelecimento do ensino obrigatório, de mãos dadas com a globalização do ensino superior, que ocorreu para as grandes massas uma substituição dos antigos títulos nobiliárquicos. Como se os condes, duques e marqueses se transformassem em doutores, mestres e professores, a nova ordem surge de uma meritocracia alegada, presumível e espontânea. O esforço académico e profissional, associado ao título, atribui a estes novos atores uma presumível bondade e brilhantismo. Aliás, este prolongamento do indivíduo presenteia-o com uma benesse tão ampla que o iliba imediatamente de qualquer maldade, atribuindo-lhe uma carta de teoria cabalista para quem o acuse de qualquer atitude imprópria. Vou poupar-me de apresentar exemplos destes casos, pois são já sobejamente badalados pelo nome dos criminosos condenados ao invés de o serem pelas inocentes vítimas desconhecidas.

Os casos mais chocantes de abuso de poder e de sentimento de impunidade têm ocorrido precisamente em profissões com notoriedade social. O caso do médico que, usando como pretexto um alegado tratamento, viola a sua paciente; o caso do advogado que, usando o seu prestígio, ludibria o seu representado; o caso do professor universitário que secretamente é um pedófilo, consumidor de pornografia infantil.

Não me parece ser um acaso que isto ocorra precisamente nos ídolos da sociedade atual, os putativos exemplos e modelos a seguir. Verdadeiramente, esses estatutos vêm com um custo: o total desequilíbrio emocional, muitas vezes reprimido, destes indivíduos. A criação de um boneco, uma imagem televisiva, para o público, para os pares e para o mundo em geral, esconde, por trás, insegurança. Essa insegurança é, por sua vez, mascarada com um super-homem ou super-mulher, que transpira impunidade e intocabilidade. Esse monstro vai crescendo e alimenta-se de tudo o que lhe aparece. A grande queda, aquando da inevitável descoberta pública do verdadeiro ser, é o derrubar de um frágil castelo de cartas, erigido em palha.

A inocência é judicialmente presumível, mas não pode estabelecer uma bitola além do evidente. É revelador do antropocentrismo extremo destas personagens a tentativa de branqueamento da realidade, mesmo após o destapar do véu. A meritocracia é destruída, pois, afinal, apenas se refere a uma aparência externa e não a qualidade internas dos seus intervenientes. É, ao invés de uma árvore que frui dos ramos à raiz, uma hera que se usa por fora do fato e gravata.

A obsessão pelo sucesso anda de mão dada com o desligamento da realidade e, consequentemente, dos valores humanos e sociais. Criámos o homem aparente. Apenas por fora parece um ser humano, mas por dentro é vazio de conteúdo, de conhecimento e de sentimento. A queda da sociedade para o abismo, ainda que pela mão das grandes nações, é guiada por homens aparentes; e não são apenas os líderes — qualquer cidadão que crie nesses homens um ídolo, é seguidor da destruição da sociedade ideal.

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